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Introdução


Podemos agora nos encaminhar propriamente à filosofia, quando até então tivemos que evocar manifestos, delimitar traços do pensamento contemporâneo, habitando em trincheiras e procurando afastar o ruído excessivo da civilização.

É próprio da autonomia cognitiva tecer novas considerações. Devemos apenas ter o cuidado de considerar os desenvolvimentos históricos e os desdobrarmos em percepções mais amplas, talvez mais livres.

Ao nosso ver, é preciso lançar os olhos para a totalidade do tempo presente, com liberdade e independência.

Parece destino da filosofia e do filósofo: compreender as estruturas e criticá-las, propondo outras, que sejam melhores, mais abrangentes.

A filosofia é sempre uma revolução axiológica.

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

{jcomments on}

 

O Múltiplo, a diversidade

Pela rua passeia o ser humano. Bicho de muitas cabeças, cada um se esforça em cumprir sonhos.

Estruturas singulares em pleno andamento, mobilizados por suas crenças, metas, esperanças, emoções, valores.

Movidos ainda por vontades de preservação ou de inovação, mesclam em comunicações prováveis suas representações.

As representações se misturam, e originam mundos múltiplos, mundos em rede, que evoluem conforme sua resolução e comunicabilidade: sua organização e assentamento em metas comuns, compartilháveis e resolutas, que além de ideais cheguem à prática.

 

A Cultura e o tempo

A estrada é aberta. Não se sabe nem se acaba. Que estamos passando é a única certeza. A cultura é companheira de viagem.

Vão ficando nossas marcas, nossas digitais nas paredes da gruta, da caverna que é hoje o mundo.

Nossas atividades deixam sinais, que constituem uma mescla entre a história geral e a nossa, e vamos tecendo sentidos, como quem deixa testamentos, como se as coisas fossem parar exatamente do jeito que as colocamos – e que chamamos de ciência.

 

A identidade do mundo

Como expressar eficazmente nossa representação, multifacetada e móvel? Que pontos privilegiar, em meio a tantos enfoques?

Como indicar alguma insinuação de sentido, que seja tão importante assim, para um início, para um marco?

É que gostamos de olhar para o mundo todo. E o que há de tão importante nesse olhar, para ser comunicado?

Resultado do múltiplo, o que vem a ser – o mundo da cultura - às vezes parece apenas confusão, fervilhamento, consumo.

Às vezes parece apenas a desordem, mistura de sentidos.

Talvez seja esta a identidade do mundo.

 

O caos contemporâneo: a mistura de opiniões

A racionalidade sofre de perspectivismo, conforme as reflexões por nós apresentadas a respeito da epistemologia do séc. XX.

A ‘junção’ das perspectivas não dá em nenhuma ‘harmonia oculta’ ou coisa assim. O resultado da mistura de opiniões no mundo contemporâneo gera, na maioria das vezes, apenas um caos terrível, insano. É preciso coragem para ver isso, sem inventar maquiagem.

O pensador deve ser capaz de refletir essa insanidade, deve poder fazer o cálculo, deduzir, induzir ou mesmo verificar o que é mais ou menos o todo da vida habitual que vivemos, considerando todos os dados que perfazem este entendimento.

O conjunto das 'ações racionais' são assim um absurdo, e é mais ou menos este absurdo o que contempla o pensador crítico, que pratica a reflexão, ainda que ela se verifique também e apenas através da perspectiva.

Não era de se esperar! O esperado seria encontrar a verdade, depois de tanto cálculo, não o caos. No entanto, o que estava lá esperando era o caos, a desordem, o múltiplo. (o mundo)

Opiniõs, contra-opiniõ es; sujeitos e contra- sujeitos...

A consciência habitual, embasada em paixões, gostos, aversões, escolhas. Contradições com outros gostos, outras paixões, outras escolhas.

A ciência é um múltiplo. Luta entre opiniões e refutações que é a própria história da humanidade.

Pode-se chocar com a quantidade ínfima de razão que há no mundo.

Pode-se chocar com a quantidade ínfima de razão que há na filosofia.

 

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

A Via Cética

Temos mantido noções céticas sobre o estabelecimento de padrões para a cognição, considerando que as construções (metafísica do sujeito) seguem a configuração própria, única, da manifestação de um indivíduo, ancorada por contextos específicos.

Desta forma, em meio a tantas opiniões (sujeitos) existindo no mundo, prós e contra outro tanto de opiniões (sujeitos) - o que é chamado pluralidade cultural - é melhor em humanas, desistir de encontrar a verdade em meio multidão. Ali se encontram somente sujeitos, ou indivíduos.

 

Filosofia e indivíduo

 As construções cognitivas - o conhecimento humano, nos aparece como desenvolvimentos de transição, que acompanham a vida humana, suas experiências e maturação, sendo um fenômeno plástico, dinâmico.

O encanto com a vida e com a liberdade, próprios da juventude, produzem constantemente novas 'concepções culturais', necessidade de novas vidas e vivências.

Estamos inseridos em processos cognitivos pessoais e sociais: nossa própria vida, inserida em nosso tempo.

Só com filosofia e arte um sujeito pode tornar-se um indivíduo, alguém que não é apenas parte da multidão.

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

A tradição crítica

A tradição filosófica, o amor ao pensamento e à ciência conhecidos por nosso mundo, foi inaugurada por alguns gregos, como Tales (cerca de 585 a.C.) e Anaximandro de Mileto (610-547 a.C.), Xenófanes de Cólofon (570-528 a.C.), Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.) e Anaxágoras de Clazômenas (500-428 a.C.).

A tradição desenvolveu-se, como brilhantemente descreveu o filósofo vienense Karl Popper, de modo que um filósofo, ao ouvir falar ou conhecer a teoria de outro, lhe propunha críticas.

Tal 'diálogo' crítico provocou lentamente a dilatação e ampliação do campo cognitivo, dos potenciais científicos, aumentando a quantidade e qualidade nas especulações feitas.

Pode-se dizer que a racionalidade tem se lapidado, tornando-se mais sutil, mais abrangente, parecendo alargar cada vez mais as ferramentas organizacionais e lógicas, que permitem cálculos cada vez mais dilatados, em disciplinas cada vez mais precisas.

Para nós a tradição é o conjunto da ciência e filosofia, em suas múltiplas disciplinas (e já vão largas as bibliotecas).

A essência da filosofia é portanto dominar a história e ir além, navegando o espaço aberto, quem sabe o futuro... tendo atrás de si o domínio da lógica do passado.

A propósito de colaborar com este espírito, citamos nas nossas 'Fundamentações' de Epistemologia e no ítem 'Filósofos que desenvolveram o tema', extratos da obra de alguns pensadores que fizeram evoluir a compreensão da lógica cognitiva do século XVIII até onde conhecemos.

O desafio para nós contemporâneos, é alcançar lentamente uma lógica melhor, ou adequar a sabedoria histórica aos nossos contextos, gerando melhor qualidade de vida. Parece ser para isso que serve a filosofia.

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

A emancipação cognitiva e o anarquismo

 

O filósofo seguramente será um rebelde. Está no seu estatuto histórico.

Ele quer viver a liberdade fundamental. Seguramente, ela é anterior ao estado: a existência é mãe suficiente do homem.

Todo ser humano possui esta liberdade fundamental.

Isto inclui a liberdade de não ser nada, de não ser pressionado a nada, de mesmo não construir discursos, performances: uma 'personalidade' para si mesmo.

Enfim, de não precisar produzir ilusões e mentiras para existir. Se quase tudo o que chamam 'conhecimento' é isso, imagine a política!

A liberdade é um passo fundamental. A graça da vida começa nela.

Não o 'verdadeiro sentido', mas a possibilidade de um sentido em abundância começa nela.

Por isso não podemos nos contentar com a filosofia em seu formato acadêmico. Esta se consome em estudos sobre escolas, muitas vezes feitos por simpatizantes apaixonados por suas próprias doxas (opiniões, escolhas), e que levam adiante na maioria dos casos apenas sua própria particularidade.

A filosofia do formato acadêmico não tem a intenção de ser uma prática, um engajamento. Por isso é chamada 'acadêmica'.

A 'verdade' parece não possuir parâmetro... mas as indicações de alguns filósofos sobre a liberdade humana, uma liberdade que só se conserva pelo pensamento livre, estão para sempre lançadas.

A filosofia é essencialmente ligada à atividade cognitiva e libertária.

Talvez isso se resuma na expressão 'emancipação pelo conhecimento'.

A real emancipação humana só pode ser cultural, cognitiva.

Ela jamais será apenas econômica.

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 
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Introdução


Podemos agora nos encaminhar propriamente à filosofia, quando até então tivemos que evocar manifestos, delimitar traços do pensamento contemporâneo, habitando em trincheiras e procurando afastar o ruído excessivo da civilização.

É próprio da autonomia cognitiva tecer novas considerações. Devemos apenas ter o cuidado de considerar os desenvolvimentos históricos e os desdobrarmos em percepções mais amplas, talvez mais livres.

Ao nosso ver, é preciso lançar os olhos para a totalidade do tempo presente, com liberdade e independência.

Parece destino da filosofia e do filósofo: compreender as estruturas e criticá-las, propondo outras, que sejam melhores, mais abrangentes.

A filosofia é sempre uma revolução axiológica.

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

{jcomments on}

 

O Múltiplo, a diversidade

Pela rua passeia o ser humano. Bicho de muitas cabeças, cada um se esforça em cumprir sonhos.

Estruturas singulares em pleno andamento, mobilizados por suas crenças, metas, esperanças, emoções, valores.

Movidos ainda por vontades de preservação ou de inovação, mesclam em comunicações prováveis suas representações.

As representações se misturam, e originam mundos múltiplos, mundos em rede, que evoluem conforme sua resolução e comunicabilidade: sua organização e assentamento em metas comuns, compartilháveis e resolutas, que além de ideais cheguem à prática.

 

A Cultura e o tempo

A estrada é aberta. Não se sabe nem se acaba. Que estamos passando é a única certeza. A cultura é companheira de viagem.

Vão ficando nossas marcas, nossas digitais nas paredes da gruta, da caverna que é hoje o mundo.

Nossas atividades deixam sinais, que constituem uma mescla entre a história geral e a nossa, e vamos tecendo sentidos, como quem deixa testamentos, como se as coisas fossem parar exatamente do jeito que as colocamos – e que chamamos de ciência.

 

A identidade do mundo

Como expressar eficazmente nossa representação, multifacetada e móvel? Que pontos privilegiar, em meio a tantos enfoques?

Como indicar alguma insinuação de sentido, que seja tão importante assim, para um início, para um marco?

É que gostamos de olhar para o mundo todo. E o que há de tão importante nesse olhar, para ser comunicado?

Resultado do múltiplo, o que vem a ser – o mundo da cultura - às vezes parece apenas confusão, fervilhamento, consumo.

Às vezes parece apenas a desordem, mistura de sentidos.

Talvez seja esta a identidade do mundo.

 

O caos contemporâneo: a mistura de opiniões

A racionalidade sofre de perspectivismo, conforme as reflexões por nós apresentadas a respeito da epistemologia do séc. XX.

A ‘junção’ das perspectivas não dá em nenhuma ‘harmonia oculta’ ou coisa assim. O resultado da mistura de opiniões no mundo contemporâneo gera, na maioria das vezes, apenas um caos terrível, insano. É preciso coragem para ver isso, sem inventar maquiagem.

O pensador deve ser capaz de refletir essa insanidade, deve poder fazer o cálculo, deduzir, induzir ou mesmo verificar o que é mais ou menos o todo da vida habitual que vivemos, considerando todos os dados que perfazem este entendimento.

O conjunto das 'ações racionais' são assim um absurdo, e é mais ou menos este absurdo o que contempla o pensador crítico, que pratica a reflexão, ainda que ela se verifique também e apenas através da perspectiva.

Não era de se esperar! O esperado seria encontrar a verdade, depois de tanto cálculo, não o caos. No entanto, o que estava lá esperando era o caos, a desordem, o múltiplo. (o mundo)

Opiniõs, contra-opiniõ es; sujeitos e contra- sujeitos...

A consciência habitual, embasada em paixões, gostos, aversões, escolhas. Contradições com outros gostos, outras paixões, outras escolhas.

A ciência é um múltiplo. Luta entre opiniões e refutações que é a própria história da humanidade.

Pode-se chocar com a quantidade ínfima de razão que há no mundo.

Pode-se chocar com a quantidade ínfima de razão que há na filosofia.

 

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

A Via Cética

Temos mantido noções céticas sobre o estabelecimento de padrões para a cognição, considerando que as construções (metafísica do sujeito) seguem a configuração própria, única, da manifestação de um indivíduo, ancorada por contextos específicos.

Desta forma, em meio a tantas opiniões (sujeitos) existindo no mundo, prós e contra outro tanto de opiniões (sujeitos) - o que é chamado pluralidade cultural - é melhor em humanas, desistir de encontrar a verdade em meio multidão. Ali se encontram somente sujeitos, ou indivíduos.

 

Filosofia e indivíduo

 As construções cognitivas - o conhecimento humano, nos aparece como desenvolvimentos de transição, que acompanham a vida humana, suas experiências e maturação, sendo um fenômeno plástico, dinâmico.

O encanto com a vida e com a liberdade, próprios da juventude, produzem constantemente novas 'concepções culturais', necessidade de novas vidas e vivências.

Estamos inseridos em processos cognitivos pessoais e sociais: nossa própria vida, inserida em nosso tempo.

Só com filosofia e arte um sujeito pode tornar-se um indivíduo, alguém que não é apenas parte da multidão.

 

 

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A tradição crítica

A tradição filosófica, o amor ao pensamento e à ciência conhecidos por nosso mundo, foi inaugurada por alguns gregos, como Tales (cerca de 585 a.C.) e Anaximandro de Mileto (610-547 a.C.), Xenófanes de Cólofon (570-528 a.C.), Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.) e Anaxágoras de Clazômenas (500-428 a.C.).

A tradição desenvolveu-se, como brilhantemente descreveu o filósofo vienense Karl Popper, de modo que um filósofo, ao ouvir falar ou conhecer a teoria de outro, lhe propunha críticas.

Tal 'diálogo' crítico provocou lentamente a dilatação e ampliação do campo cognitivo, dos potenciais científicos, aumentando a quantidade e qualidade nas especulações feitas.

Pode-se dizer que a racionalidade tem se lapidado, tornando-se mais sutil, mais abrangente, parecendo alargar cada vez mais as ferramentas organizacionais e lógicas, que permitem cálculos cada vez mais dilatados, em disciplinas cada vez mais precisas.

Para nós a tradição é o conjunto da ciência e filosofia, em suas múltiplas disciplinas (e já vão largas as bibliotecas).

A essência da filosofia é portanto dominar a história e ir além, navegando o espaço aberto, quem sabe o futuro... tendo atrás de si o domínio da lógica do passado.

A propósito de colaborar com este espírito, citamos nas nossas 'Fundamentações' de Epistemologia e no ítem 'Filósofos que desenvolveram o tema', extratos da obra de alguns pensadores que fizeram evoluir a compreensão da lógica cognitiva do século XVIII até onde conhecemos.

O desafio para nós contemporâneos, é alcançar lentamente uma lógica melhor, ou adequar a sabedoria histórica aos nossos contextos, gerando melhor qualidade de vida. Parece ser para isso que serve a filosofia.

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 

A emancipação cognitiva e o anarquismo

 

O filósofo seguramente será um rebelde. Está no seu estatuto histórico.

Ele quer viver a liberdade fundamental. Seguramente, ela é anterior ao estado: a existência é mãe suficiente do homem.

Todo ser humano possui esta liberdade fundamental.

Isto inclui a liberdade de não ser nada, de não ser pressionado a nada, de mesmo não construir discursos, performances: uma 'personalidade' para si mesmo.

Enfim, de não precisar produzir ilusões e mentiras para existir. Se quase tudo o que chamam 'conhecimento' é isso, imagine a política!

A liberdade é um passo fundamental. A graça da vida começa nela.

Não o 'verdadeiro sentido', mas a possibilidade de um sentido em abundância começa nela.

Por isso não podemos nos contentar com a filosofia em seu formato acadêmico. Esta se consome em estudos sobre escolas, muitas vezes feitos por simpatizantes apaixonados por suas próprias doxas (opiniões, escolhas), e que levam adiante na maioria dos casos apenas sua própria particularidade.

A filosofia do formato acadêmico não tem a intenção de ser uma prática, um engajamento. Por isso é chamada 'acadêmica'.

A 'verdade' parece não possuir parâmetro... mas as indicações de alguns filósofos sobre a liberdade humana, uma liberdade que só se conserva pelo pensamento livre, estão para sempre lançadas.

A filosofia é essencialmente ligada à atividade cognitiva e libertária.

Talvez isso se resuma na expressão 'emancipação pelo conhecimento'.

A real emancipação humana só pode ser cultural, cognitiva.

Ela jamais será apenas econômica.

 

 

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