PostHeaderIcon Histórias do Véio

Introdução às Histórias do Véio

 

O Véio é um personagem sertânico. Sua aparição mescla muitas artes.

Lembramos ainda da fase em que se considerava um ‘acontecimento da ética’ no cenário nacional.

Mesclando o conto, a dureza da vida cotidiana, com muito de cultura popular e construção de mitos a respeito de si mesmo, ele retrata muitas paisagens em suas aventuras com o cavalo, seu companheiro inseparável.

Trechos:

‘Para mim o que chamam conhecimento é um aborrecimento e um embuste! Na maioria das vezes são pessoas querendo vender coisas, ensinar sabe-se lá o quê .’

‘Uma rebelião contra a sujeição, estendida ao conhecimento’– disse o Véio. ‘O conhecimento sujeita, posiciona, fixa, talvez prenda’ – sugeriu ainda, querendo provocar novas desconfianças, em novos filósofos.

‘O cavalo, que olhava tudo aquilo confuso – remoendo um tufo de grama no focinho, fazia sinal de negativo com a cabeça e afastava as moscas com o rabo, batendo as vezes fortemente com a pata no chão. Era sua maneira de dizer que não acreditava em tudo aquilo. Cético e crítico, ganhou as planícies isolado, a meditar sobre a vida dos homens. Desistiu. Hoje é um animar irracional.’

As Histórias do Véio dispensam comentários. E além disso, ele está muito idoso para comentar. O ideal segundo ele é ‘ler por si mesmo’.

 

 

 

HISTÓRIAS DO VÉIO

Noite. O cavalo dorme. "Ainda bem! Assim posso viver um pouco" - disse o Véio. Cansado daquele "maldito" cavalo a lhe vigiar todos os passos, foi saindo de fininho, pisando, do lado de fora do rancho, a orvalhada serra do planalto... Passo a passo foi saindo, quando lá fora uma coruja pia, acordando o cavalo. "Não foi dessa vez" - pensou o Véio - "não foi dessa vez". Disfarçou imediatamente seu intento, antes que o cavalo viesse com suas bem conhecidas lições morais. Pegou um graveto, e fingia mexer no chão como se tivesse acabado de plantar alguma coisa. O cavalo, que não é bobo, pensou: "Não posso cochilar um pouco e este velho "traquina" já começa a aprontar." E logo foi cevando um mate na cabana, "fingindo movimento". O Véio, lá fora, sem jeito por ter sido pego de surpresa logo na saída, entrou no rancho por trás e ficou alisando cuidadosamente um "velho freio", todo gasto, prá demonstrar superioridade. O cavalo, na sala, cansado daquela vida "trabalhosa" de cuidar daquele velho medonho, lembrava-se do dia em que o Véio pôs ele para carregar uns "uísque" que ele tinha comprado, com a intenção de se meter na cabana e passar o mês todo bebendo... Cuidando da saúde do Véio, pensou até em dar parte polícia, mas o Véio podia até morrer do coração... Ainda lembra do dia em que o Véio falou prá ele um monte de tolices a respeito da bebida, e que, na sua posição de cavalo, tinha de ficar ouvindo as coisas mais burras, e quantas vezes tinha "fingido de besta" na frente do Véio... e resolveu mudar de vida.

Tomou um mate "pura-folha" e dirigiu-se ao quarto de trás, onde o Véio tinha adormecido numa velha rede. Foi inevitável lembrar-se do dia em que estava "gripado" e o Véio fez um chá de erva-cidreira prá ele sará... e do dia em que o Véio "desmontou" ele prá passarem num lugar perigoso... Enfim, foi recostar-se na varanda, a ver estrelas e comer pipocas, lembrando de suas aventuras.

 

Esclarecimentos sobre o cavalo

Consta que seu primeiro nome era "Arineu" e que havia estudado muito, principalmente "filosofia" e "artes". Trabalhou na roça cerca de três anos e sempre fora do Véio. Era filho de um cavalo chamado "Instável" e de uma égua chamada "Constança". Ficara sabendo depois, enquanto crescia, que o Véio era um sujeito que parecia mais uma "alma penada", dado seus custume de assustá os outro e se infiá em tudo que é assunto. Quando cresceu, Arineu ajudou o Véio em muitas batalhas, quando o Véio grudou no seu pescoço "igual os índio" e depois disso ficaram muito amigos. O Véio, que não era novo nem nada, logo viu que aquele era um cavalo incomum, pois era dotado para as artes e ao fox-trote (sua especialidade) e demonstrava uma sensibilidade rara para a filosofia, motivo pelo qual o Véio tirou o cavalo da roça e colocou num colégio. Nos primeiros dias ele estranhou muito, devido ao ambiente fechado, ao que não estava acostumado. Mas no final do ano já era um cavalo "erudito", que levava os livros a galope. O Véio, muito orgulhoso, já imaginava o dia em que poderia mandar aquele cavalo para um prêmio na cidade, e melhorar aquela vida de plantar mandioca que levava para sustentar a si mesmo e ao cavalo.

Com o passar do tempo, o cavalo começou a afastar-se de carregar as caixas de cenouras que o Véio produzia, pois estava mais preocupado com a organização das estrelas. Com tanto conhecimento, o cavalo acabou se afastando muito do Véio, pois ficara muito sábio e fora até estudar no exterior. O Véio, então mais moço, continuava plantando sua roça e ajudando aquele "afilhado" que encontrara naquele cavalo brilhante.

Depois de muito tempo "no exterior", o cavalo voltou muito diferente, muito transformado do que havia sido. Comprou uma sela nova, convidou o Véio para uma volta, e no caminho contou ao Véio todas as suas aventuras, e que todo seu estudo era praticamente inútil, porque as pessoas não colocavam em prática aquilo, e ele estava achando que "puxar uma carroça tinha mais utilidade do que ficar pensando naquelas coisas". O Véio então pode dizer ao velho amigo: "Todos esses anos, vi você troteando, subindo os morro e descendo atrás do "conhecimento", e eu sabia que um dia você ia entendê porque eu n o saio da minha cabana prá ir em reunião de bacana...". O cavalo então, já completamente maduro, encontrou no Véio um "encosto", e descubriu que o Véio era muito sábio, mais sábio que ele pudia entendê . Enfim de volta ao começo, de onde partira feliz, o cavalo se ocupou, em construir um chafariz.

 03

O Véio pensava: "Pouco sabe o povo aquí da vila que eu não sei nada direito e alguns até acham que escondo "segredos". Quando era moço, com a ajuda do cavalo, percorremos campos e serras atrás do "conhecimento". Mas os caminho foro acabando, e até o cavalo "posava de enjoado", dizendo que já conhecia tudo.

Procurou tomar um café com leite que misturava para conter a "erosão" do estômago, seguindo seu antigo costume de esquivar-se de questões que não levavam a parte alguma. Espiou o cavalo, que "tomava sol", e concentrou-se de novo no problema que naquela manhã parecia fundamental.

O Véio pensou em quão pouco se pode saber, e que a gente é simples, e muito pequeno. Depois pensou que não era orgulhoso e nem se sentia limitado. Como a coisa "tava cumpricando", resorveu se afastá dessas conversa, pois num acreditava que nóis era gente cumpricada. O Véio achava que o povo tava correndo pouco sabia atrás de quê . A memória do Véio já tava fraca, mas quando o galo cantou, ele se lembrou das panela que tinha botado fervê , prá modi alimentá o cavalo, e se tivesse fome, prá ele também podê cumê .

 04

Numa noite fria, o Véio estava escondido, pois o ar estava nevoento, enquanto um avião circulava o rancho. "Ufa! Posso enfim pensar sossegado!" - exclamou.

Depois de tanta "peleia" com seus pensamentos, o Véio sentiu que sabia muitas maneira de ver, pois passara por tantas escolas na juventude, e todas elas ajudaram a formar o que o Véio era hoje.

O cavalo, que "achava ruim" quando o Véio entrava em muitas caraminholas, tossiu para chamar a atenção, desviando assim o Véio daquelas lembrança.

 05

"Eis como construo o mundo com o pensamento!" - pensava o Véio, e sentiu: "Preciso dar uma direção à minha vida". É claro que naquelas alturas tudo devia estar muito confuso devido mistura de escolas que o Véio havia visitado. Quase todas diziam estar com a "verdade". Passou então a elaborar um novo "plano diretor", pois sabia que, em tempos de crise como esse, às vezes a única tábua que restava flutuando no naufrágio da ciência era construída com muito trabalho. O Véio se interessou mais sobre o assunto. Os antigos problemas novamente lhe chamaram a atenção, mas tinha medo de "perder a poesia", como no tempo em que a terra árida da lógica quase o matou de sede. Mas o Véio sempre se interessara pelo pensamento. "Com o pensamento em fluxo, como determinar uma questão parada?" - pensou. E continuou: "O que apontar no mundo, que se pareça com a verdade?" O Véio era um filósofo... Ele achava que era preciso sempre uma visão atual desses assunto, e que as explicações que tinha conhecido carecia de uma evolução maior, mais profunda, que "talvez só o tempo, e alguns homens do futuro saberiam colocar adequadamente".

Porém, o que "atentava" mais o Véio era justamente "tentar antecipar o tempo", no sentido de "espiar" o caminho que levaria àquelas questões futuras.

O Véio tinha observado muitos problemas oriundos da "sabedoria", como a separação das pessoas, a discussão, e achava que a realidade era "a ignorância", e que podíamos ficar tranquilos na insegurança, pois a "questão geral" nunca se resolveu, e nunca se resolverá porque ela é muito abstrata. Ele também achava que se deve pensar bem o tipo de colocação que se faz para encarar a vida, pois as coisas começam parecendo pensamentos, depois viram realidade.

Depois disso o Véio derivava em pensamentos distantes, tão distantes que talvez nem existissem.

Enquanto se recolhia pensou nos movimentos inúteis que fazemos para chegar sempre não mais que onde estamos, vivos, e percebeu que a essas alturas comprazia-se com algo para que nunca achava o prumo certo, a caraminhola da filosofia, e que, "devia ser por isso", sempre continuava.

06

Depois o Véio pensou: "É claro que n o consigo escrever o ser, o ser não é algo para ser escrito." E contentava-se a olhar a madrugada, tomando o mate, e olhando o cavalo, que pastava ao longe.

07

"Que antinomias! Que antinomias!" – gritou o Véio. "Isso é um absurdo!"

Não dá mais para continuar com o pensamento linear! Temos de tomar providências com esta loucura que se abriga dentro de nós! No entanto, tomou-se de admiração por um cabritinho que pastava e esqueceu daquilo.

O Véio porém, estava admirado de como a cabeça dava voltas e mudava de opinião o tempo todo. "Maldita cabeça" - pensou, "ela devia trabalhar a favor da gente". Planejava dar um "choque" na cabeça, pois segundo ele, ela s vezes queria tomar as rédeas de tudo e "seria o mesmo que o cavalo me levar sempre para onde ele quer" - pensou. No fundo o Véio não acreditava muito na cabeça. Sua experiência apontava que ela não era de confiança, pois "ficava com questões o tempo todo", incomodando e metendo o sujeito em "antinomia". "O problema é que a cabeça tem uma desorganização compricada "- disse o Véio, " tudo o que ela pensa, pensa também o contrário" e " num demora muito prá levar o sujeito prá uma confusão brava".

08

Cansado de suas andança, o Véio tentava se concentrar no seu "último problema", antes que a morte viesse para "o último galope". Caraminholava sozinho sobre os mistérios da vida, o que novamente lhe vinha no interesse, pois da última vez, segundo se lembra, havia desistido de "com problemas, resolver outros". Daquela vez ele desistiu de tudo aquilo e seguiu em frente, acreditando que algumas coisas devem ser feitas, além de serem pensadas.

O Véio deixou que tudo aquilo se apaziguasse na sua cabeça, quando encontrou um antigo amigo que lhe fizera muitas perguntas. As perguntas despertaram o interesse do Véio. Em atenção às perguntas do seu amigo, ele escreveu estas histórias.

"Meu caro e mui nobre amigo, é com alegria que me ponho a pensar nas tuas questões, ainda que faça isso à minha maneira. Estas coisas estavam adormecidas no pó da estrada. Deixo escrito estas memória na iminência de que já estou um tanto velho e "temos de estar preparados".

09

No silêncio, aliado àqueles pensamento que lhe vinha à cabeça, incutiu o Véio na idéia de que "quase tudo que lhe passava cabeça era filosofia". Mas com esta idéia encontrou um problema: "Como uma idéia ia sê conhecida por "filosofia" e outra não?"

E pensou: "Acordo, lembro logo de fazê o café. Isso, pelo que eu saiba, não é filosofia nenhuma. "Depois, vou cuidá das horta e das criação". Aí, só se tivé uma "filosofia da vida", "de plantá pra continuá vivo"- pensou.

Depois o armoço, uma soneca, e quando levanto de novo começo a lembrá da minha vida, das minha andança. Acho que aí são as memória.

"Passando pela sala vejo um livro na estante, mais véio que eu, da juventude: os Pré-Socráticos". Ahá! - exclamou - , "aí está o começo da filosofia". Aí começaro definições compricadas sobre o que era, o que não era, "e sobre os dois juntos!" - pasmou o Véio. Ele se lembrou daquelas questões e finalmente pode admitir que isto era filosofia, ainda que parecia uma coisa um pouco confusa.

Seguindo suas idéias, o Véio continuou: "Então, quem quer "mexer" com a filosofia tem de começar por elas". No entanto, o Véio pensava intimamente que já tinha "passado" por elas, e por muitas outras... e se perguntava se tinha adquirido então um "juízo filosófico".

"Que juízo tenho eu hoje em dia?" - perguntou a si mesmo. "Será que o que eu acho das coisa é a minha filosofia? (...) Mas, se for só o que eu acho, não serve pros outros...".

Quando a coisa começou a enrolar, o Véio concluiu, meio na urgência, que era melhor tomá um café, ou se distraí com arguma coisa, antes que aquilo virasse uma "areia movediça".

10

"Este é um lugar onde cada um encontra os bicho de cada um". Só este dito do Véio serviria para dar uma idéia dos nevoeiro que o Véio via no vento de vez em quando. "Talvez ainda se encontre por aí uma pessoa com quem se possa conversar" - pensou, enquanto chutava uma latinha amassada. "Não sei como alguém sobrevive no meio dessa poeira" - resmungava , e caminhava na rua silenciosamente, falando sozinho.

11

"O sonho e as image", disse o Véio que "era o mistério".

Porque "quando olhava uma árvore, sabia que era o Véio",

mas quando entrava pro sonho,

as veis não sabia quem era.

"Se as árvore ficasse parada lá"...

Mas num sigundo si some, dando lugar aos sonhos...

Os pensamento vão virando image e tomando o lugar das árvore,

E quando se vê , estamos sonhando profundamente,

E quando se vê , estamos sonhando.

12

O Véio estava exausto. Ele parou, e pensou que tava cansado de escrever literatura, ainda mais que sua plantação de cenouras estava abandonada. Lembrou do seu "sonho do mato", e que a essas alturas já estava enfeitiçado pelos brilho da cidade, vivendo uma vida de "aipim", fazendo fogueira no meio dos prédio, pra módi espantá a tristeza. Ora, ele muntou no cavalo e foi embora. Foro direto pros riacho, onde tem água pura e mato.

O Véio era realmente um sujeito miserávi, ele num murria, só si transformava. Assim ele ia, num caminho sem fim, que "só ele sabia onde estava". O cavalo, Arineu, por sua vez "veiaco", tinha um olho no Véio, outro no pasto.

13

"Só um filósofo pra saber que ninguém tá certo, e ninguém tá errado, mas que se identifica com uma posição o otra..." – disse o Véio. E pôs-se a buscar Arineu onde estava, pois sabia que só ele poderia entender aquelas questões para as quais o papel era finito, e por fim tudo se afigurava vão. Arineu, que pastava num canto, logo viu que o Véio tava metido em "caraminholas", pois caminhava ao seu encontro como quem pedisse socorro. O Véio, a essas alturas quase morto, bastou em deixar-se cair ao chão, próximo a Arineu, que ajoelhou-se para ajudar o Véio a transpor toda aquela "carga" que a "cultura" tinha posto nas suas costa. Alguns dizem que morreu aos pés de Arineu, prostrado. Outros, que quando amanheceu lá estava apenas suas roupas, um chapéu e um blusão de couro. O Véio morreu... ou sei lá, mas hoje existe a história. Arineu, "cansado de sofrer" quer ir logo "para o lugar onde o Véio está" a que o Véio responde que "isso é uma burrice", e a confusão continua.

14

Na solidão do rancho, o Véio amanhecido, pensava.

Ele pensava que sempre tinha umas paragens,

Na cabeça, nos sonhos,

Sempre continuava por algum lugar.

Agora que havia morrido, ele pensava o que seria dele,

Já que muitos sonhos tinham ficado pra trás.

Já tinha feito todo o possível pra se enquadrar lá na vila,

Mas tava enfim decidindo, que não ia se trocá por uns "pila".

Tinha pensado na andança, na "cruzança" desse chão,

E ficou ali meditando: e se fosse, tudo em vão?

Se fosse em vão não adiantava,

Na vida, cruzar caminhos,

E nem ter sonhos distantes,

Nem também sonhos pertinhos.

 

Ditos do Véio


O Véio disse que é filósofo formado no meio do mato, e tem umas idéia da roça.

"Minhas idéia firme foro robada pelos ladrão das estrada".

"Nóis ilhado, pensando o mundo".

Meditando, descobriu que era o Véio.

Depois de suas meditação, o Véio vortou a ser o que era, um sujeito desabitado.

"Enquanto trabalho, alimento sonhos".

Muitas vezes pegou o cavalo fingindo fraquejamento.

"A estrada envelhece o cabra. Ainda mais quando na estrada só tem cobra".

O "solipcismo", pro Véio, é ficar sozinho.

"Os livro estão cheio das biblioteca. O mundo está falho de atos".

"Feliz os que tem na mente o cerne da inteligência".

"Tive que fundar minha própria maneira de pensar" – disse o Véio.

"A física é teórica, e a filosofia é uma prática".

 

Perguntaram ao Véio sua "metodologia".

"Num semestre escrevo - disse -

Noutro, jogo os papéis fora".

 

"Eu bem preferia plantar abóbora e criar peixe".

"É tudo a mesma coisa. A televisão é as image do rádio, e o rádio é a voz da televisão".

A 'roça' não é um lugar imaginário, mas existe mesmo.

"Se a gente cuidá das pranta, arguém deve cuidá da gente..."

"O que passa na minha cabeça é o que eu mesmo criei. Eu sou um ser velho".

"Dá licença que eu tô de olho no silêncio".

"Uma arrancada... pra um retorno solidão".

"No costado da casa, inteligente, uma boiada".

"Falou no cavalo, falou no Véio".

"Meu cavalo ta arreado lá embaixo. Se não tem capim ele masca é o asfalto".

E o Véio seguia com seus procedimentos rudimentais.

 

Poesia do Véio

Eu vortei lá pro sertão

Ver o que a escola não deu

Lá meu sapato comeu

E o suor pingou no chão.

Todos meu conhecimento

Fui forçado a revisar

Acampado lá na serra

Com o fogo a estalar.

Lembrei da minha inocência

De quando eu era bem moço

Na cabeça o alvoroço

Das idéia a passear.

De que vale tudo isso

Frente a um fogão de terra

Tanta coisa "antinômica"

Nos fundão desta tapera?

A queda d'água mais selvagem

Me levei prá contemplar

Quando vi aquelas lage

Me lembrei do meu lugar

Mas depois saí contente

Lembrando do nosso sonho

Quando nóis lá na cidade

Tinha um vivê medonho.

 

Se apegô nas coisa simples

Depois de tantas bobage...

Mas prá estudá as estrela

Leva uns livro na bagage.

E depois de toda a lida

Com o cavalo na estalage,

O Véio puxa a viola

De um saco de viage...

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009

 


Histórias do Véio

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Introdução às Histórias do Véio

 

O Véio é um personagem sertânico. Sua aparição mescla muitas artes.

Lembramos ainda da fase em que se considerava um ‘acontecimento da ética’ no cenário nacional.

Mesclando o conto, a dureza da vida cotidiana, com muito de cultura popular e construção de mitos a respeito de si mesmo, ele retrata muitas paisagens em suas aventuras com o cavalo, seu companheiro inseparável.

Trechos:

‘Para mim o que chamam conhecimento é um aborrecimento e um embuste! Na maioria das vezes são pessoas querendo vender coisas, ensinar sabe-se lá o quê .’

‘Uma rebelião contra a sujeição, estendida ao conhecimento’– disse o Véio. ‘O conhecimento sujeita, posiciona, fixa, talvez prenda’ – sugeriu ainda, querendo provocar novas desconfianças, em novos filósofos.

‘O cavalo, que olhava tudo aquilo confuso – remoendo um tufo de grama no focinho, fazia sinal de negativo com a cabeça e afastava as moscas com o rabo, batendo as vezes fortemente com a pata no chão. Era sua maneira de dizer que não acreditava em tudo aquilo. Cético e crítico, ganhou as planícies isolado, a meditar sobre a vida dos homens. Desistiu. Hoje é um animar irracional.’

As Histórias do Véio dispensam comentários. E além disso, ele está muito idoso para comentar. O ideal segundo ele é ‘ler por si mesmo’.

 

 

 

HISTÓRIAS DO VÉIO

Noite. O cavalo dorme. "Ainda bem! Assim posso viver um pouco" - disse o Véio. Cansado daquele "maldito" cavalo a lhe vigiar todos os passos, foi saindo de fininho, pisando, do lado de fora do rancho, a orvalhada serra do planalto... Passo a passo foi saindo, quando lá fora uma coruja pia, acordando o cavalo. "Não foi dessa vez" - pensou o Véio - "não foi dessa vez". Disfarçou imediatamente seu intento, antes que o cavalo viesse com suas bem conhecidas lições morais. Pegou um graveto, e fingia mexer no chão como se tivesse acabado de plantar alguma coisa. O cavalo, que não é bobo, pensou: "Não posso cochilar um pouco e este velho "traquina" já começa a aprontar." E logo foi cevando um mate na cabana, "fingindo movimento". O Véio, lá fora, sem jeito por ter sido pego de surpresa logo na saída, entrou no rancho por trás e ficou alisando cuidadosamente um "velho freio", todo gasto, prá demonstrar superioridade. O cavalo, na sala, cansado daquela vida "trabalhosa" de cuidar daquele velho medonho, lembrava-se do dia em que o Véio pôs ele para carregar uns "uísque" que ele tinha comprado, com a intenção de se meter na cabana e passar o mês todo bebendo... Cuidando da saúde do Véio, pensou até em dar parte polícia, mas o Véio podia até morrer do coração... Ainda lembra do dia em que o Véio falou prá ele um monte de tolices a respeito da bebida, e que, na sua posição de cavalo, tinha de ficar ouvindo as coisas mais burras, e quantas vezes tinha "fingido de besta" na frente do Véio... e resolveu mudar de vida.

Tomou um mate "pura-folha" e dirigiu-se ao quarto de trás, onde o Véio tinha adormecido numa velha rede. Foi inevitável lembrar-se do dia em que estava "gripado" e o Véio fez um chá de erva-cidreira prá ele sará... e do dia em que o Véio "desmontou" ele prá passarem num lugar perigoso... Enfim, foi recostar-se na varanda, a ver estrelas e comer pipocas, lembrando de suas aventuras.

 

Esclarecimentos sobre o cavalo

Consta que seu primeiro nome era "Arineu" e que havia estudado muito, principalmente "filosofia" e "artes". Trabalhou na roça cerca de três anos e sempre fora do Véio. Era filho de um cavalo chamado "Instável" e de uma égua chamada "Constança". Ficara sabendo depois, enquanto crescia, que o Véio era um sujeito que parecia mais uma "alma penada", dado seus custume de assustá os outro e se infiá em tudo que é assunto. Quando cresceu, Arineu ajudou o Véio em muitas batalhas, quando o Véio grudou no seu pescoço "igual os índio" e depois disso ficaram muito amigos. O Véio, que não era novo nem nada, logo viu que aquele era um cavalo incomum, pois era dotado para as artes e ao fox-trote (sua especialidade) e demonstrava uma sensibilidade rara para a filosofia, motivo pelo qual o Véio tirou o cavalo da roça e colocou num colégio. Nos primeiros dias ele estranhou muito, devido ao ambiente fechado, ao que não estava acostumado. Mas no final do ano já era um cavalo "erudito", que levava os livros a galope. O Véio, muito orgulhoso, já imaginava o dia em que poderia mandar aquele cavalo para um prêmio na cidade, e melhorar aquela vida de plantar mandioca que levava para sustentar a si mesmo e ao cavalo.

Com o passar do tempo, o cavalo começou a afastar-se de carregar as caixas de cenouras que o Véio produzia, pois estava mais preocupado com a organização das estrelas. Com tanto conhecimento, o cavalo acabou se afastando muito do Véio, pois ficara muito sábio e fora até estudar no exterior. O Véio, então mais moço, continuava plantando sua roça e ajudando aquele "afilhado" que encontrara naquele cavalo brilhante.

Depois de muito tempo "no exterior", o cavalo voltou muito diferente, muito transformado do que havia sido. Comprou uma sela nova, convidou o Véio para uma volta, e no caminho contou ao Véio todas as suas aventuras, e que todo seu estudo era praticamente inútil, porque as pessoas não colocavam em prática aquilo, e ele estava achando que "puxar uma carroça tinha mais utilidade do que ficar pensando naquelas coisas". O Véio então pode dizer ao velho amigo: "Todos esses anos, vi você troteando, subindo os morro e descendo atrás do "conhecimento", e eu sabia que um dia você ia entendê porque eu n o saio da minha cabana prá ir em reunião de bacana...". O cavalo então, já completamente maduro, encontrou no Véio um "encosto", e descubriu que o Véio era muito sábio, mais sábio que ele pudia entendê . Enfim de volta ao começo, de onde partira feliz, o cavalo se ocupou, em construir um chafariz.

 03

O Véio pensava: "Pouco sabe o povo aquí da vila que eu não sei nada direito e alguns até acham que escondo "segredos". Quando era moço, com a ajuda do cavalo, percorremos campos e serras atrás do "conhecimento". Mas os caminho foro acabando, e até o cavalo "posava de enjoado", dizendo que já conhecia tudo.

Procurou tomar um café com leite que misturava para conter a "erosão" do estômago, seguindo seu antigo costume de esquivar-se de questões que não levavam a parte alguma. Espiou o cavalo, que "tomava sol", e concentrou-se de novo no problema que naquela manhã parecia fundamental.

O Véio pensou em quão pouco se pode saber, e que a gente é simples, e muito pequeno. Depois pensou que não era orgulhoso e nem se sentia limitado. Como a coisa "tava cumpricando", resorveu se afastá dessas conversa, pois num acreditava que nóis era gente cumpricada. O Véio achava que o povo tava correndo pouco sabia atrás de quê . A memória do Véio já tava fraca, mas quando o galo cantou, ele se lembrou das panela que tinha botado fervê , prá modi alimentá o cavalo, e se tivesse fome, prá ele também podê cumê .

 04

Numa noite fria, o Véio estava escondido, pois o ar estava nevoento, enquanto um avião circulava o rancho. "Ufa! Posso enfim pensar sossegado!" - exclamou.

Depois de tanta "peleia" com seus pensamentos, o Véio sentiu que sabia muitas maneira de ver, pois passara por tantas escolas na juventude, e todas elas ajudaram a formar o que o Véio era hoje.

O cavalo, que "achava ruim" quando o Véio entrava em muitas caraminholas, tossiu para chamar a atenção, desviando assim o Véio daquelas lembrança.

 05

"Eis como construo o mundo com o pensamento!" - pensava o Véio, e sentiu: "Preciso dar uma direção à minha vida". É claro que naquelas alturas tudo devia estar muito confuso devido mistura de escolas que o Véio havia visitado. Quase todas diziam estar com a "verdade". Passou então a elaborar um novo "plano diretor", pois sabia que, em tempos de crise como esse, às vezes a única tábua que restava flutuando no naufrágio da ciência era construída com muito trabalho. O Véio se interessou mais sobre o assunto. Os antigos problemas novamente lhe chamaram a atenção, mas tinha medo de "perder a poesia", como no tempo em que a terra árida da lógica quase o matou de sede. Mas o Véio sempre se interessara pelo pensamento. "Com o pensamento em fluxo, como determinar uma questão parada?" - pensou. E continuou: "O que apontar no mundo, que se pareça com a verdade?" O Véio era um filósofo... Ele achava que era preciso sempre uma visão atual desses assunto, e que as explicações que tinha conhecido carecia de uma evolução maior, mais profunda, que "talvez só o tempo, e alguns homens do futuro saberiam colocar adequadamente".

Porém, o que "atentava" mais o Véio era justamente "tentar antecipar o tempo", no sentido de "espiar" o caminho que levaria àquelas questões futuras.

O Véio tinha observado muitos problemas oriundos da "sabedoria", como a separação das pessoas, a discussão, e achava que a realidade era "a ignorância", e que podíamos ficar tranquilos na insegurança, pois a "questão geral" nunca se resolveu, e nunca se resolverá porque ela é muito abstrata. Ele também achava que se deve pensar bem o tipo de colocação que se faz para encarar a vida, pois as coisas começam parecendo pensamentos, depois viram realidade.

Depois disso o Véio derivava em pensamentos distantes, tão distantes que talvez nem existissem.

Enquanto se recolhia pensou nos movimentos inúteis que fazemos para chegar sempre não mais que onde estamos, vivos, e percebeu que a essas alturas comprazia-se com algo para que nunca achava o prumo certo, a caraminhola da filosofia, e que, "devia ser por isso", sempre continuava.

06

Depois o Véio pensou: "É claro que n o consigo escrever o ser, o ser não é algo para ser escrito." E contentava-se a olhar a madrugada, tomando o mate, e olhando o cavalo, que pastava ao longe.

07

"Que antinomias! Que antinomias!" – gritou o Véio. "Isso é um absurdo!"

Não dá mais para continuar com o pensamento linear! Temos de tomar providências com esta loucura que se abriga dentro de nós! No entanto, tomou-se de admiração por um cabritinho que pastava e esqueceu daquilo.

O Véio porém, estava admirado de como a cabeça dava voltas e mudava de opinião o tempo todo. "Maldita cabeça" - pensou, "ela devia trabalhar a favor da gente". Planejava dar um "choque" na cabeça, pois segundo ele, ela s vezes queria tomar as rédeas de tudo e "seria o mesmo que o cavalo me levar sempre para onde ele quer" - pensou. No fundo o Véio não acreditava muito na cabeça. Sua experiência apontava que ela não era de confiança, pois "ficava com questões o tempo todo", incomodando e metendo o sujeito em "antinomia". "O problema é que a cabeça tem uma desorganização compricada "- disse o Véio, " tudo o que ela pensa, pensa também o contrário" e " num demora muito prá levar o sujeito prá uma confusão brava".

08

Cansado de suas andança, o Véio tentava se concentrar no seu "último problema", antes que a morte viesse para "o último galope". Caraminholava sozinho sobre os mistérios da vida, o que novamente lhe vinha no interesse, pois da última vez, segundo se lembra, havia desistido de "com problemas, resolver outros". Daquela vez ele desistiu de tudo aquilo e seguiu em frente, acreditando que algumas coisas devem ser feitas, além de serem pensadas.

O Véio deixou que tudo aquilo se apaziguasse na sua cabeça, quando encontrou um antigo amigo que lhe fizera muitas perguntas. As perguntas despertaram o interesse do Véio. Em atenção às perguntas do seu amigo, ele escreveu estas histórias.

"Meu caro e mui nobre amigo, é com alegria que me ponho a pensar nas tuas questões, ainda que faça isso à minha maneira. Estas coisas estavam adormecidas no pó da estrada. Deixo escrito estas memória na iminência de que já estou um tanto velho e "temos de estar preparados".

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No silêncio, aliado àqueles pensamento que lhe vinha à cabeça, incutiu o Véio na idéia de que "quase tudo que lhe passava cabeça era filosofia". Mas com esta idéia encontrou um problema: "Como uma idéia ia sê conhecida por "filosofia" e outra não?"

E pensou: "Acordo, lembro logo de fazê o café. Isso, pelo que eu saiba, não é filosofia nenhuma. "Depois, vou cuidá das horta e das criação". Aí, só se tivé uma "filosofia da vida", "de plantá pra continuá vivo"- pensou.

Depois o armoço, uma soneca, e quando levanto de novo começo a lembrá da minha vida, das minha andança. Acho que aí são as memória.

"Passando pela sala vejo um livro na estante, mais véio que eu, da juventude: os Pré-Socráticos". Ahá! - exclamou - , "aí está o começo da filosofia". Aí começaro definições compricadas sobre o que era, o que não era, "e sobre os dois juntos!" - pasmou o Véio. Ele se lembrou daquelas questões e finalmente pode admitir que isto era filosofia, ainda que parecia uma coisa um pouco confusa.

Seguindo suas idéias, o Véio continuou: "Então, quem quer "mexer" com a filosofia tem de começar por elas". No entanto, o Véio pensava intimamente que já tinha "passado" por elas, e por muitas outras... e se perguntava se tinha adquirido então um "juízo filosófico".

"Que juízo tenho eu hoje em dia?" - perguntou a si mesmo. "Será que o que eu acho das coisa é a minha filosofia? (...) Mas, se for só o que eu acho, não serve pros outros...".

Quando a coisa começou a enrolar, o Véio concluiu, meio na urgência, que era melhor tomá um café, ou se distraí com arguma coisa, antes que aquilo virasse uma "areia movediça".

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"Este é um lugar onde cada um encontra os bicho de cada um". Só este dito do Véio serviria para dar uma idéia dos nevoeiro que o Véio via no vento de vez em quando. "Talvez ainda se encontre por aí uma pessoa com quem se possa conversar" - pensou, enquanto chutava uma latinha amassada. "Não sei como alguém sobrevive no meio dessa poeira" - resmungava , e caminhava na rua silenciosamente, falando sozinho.

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"O sonho e as image", disse o Véio que "era o mistério".

Porque "quando olhava uma árvore, sabia que era o Véio",

mas quando entrava pro sonho,

as veis não sabia quem era.

"Se as árvore ficasse parada lá"...

Mas num sigundo si some, dando lugar aos sonhos...

Os pensamento vão virando image e tomando o lugar das árvore,

E quando se vê , estamos sonhando profundamente,

E quando se vê , estamos sonhando.

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O Véio estava exausto. Ele parou, e pensou que tava cansado de escrever literatura, ainda mais que sua plantação de cenouras estava abandonada. Lembrou do seu "sonho do mato", e que a essas alturas já estava enfeitiçado pelos brilho da cidade, vivendo uma vida de "aipim", fazendo fogueira no meio dos prédio, pra módi espantá a tristeza. Ora, ele muntou no cavalo e foi embora. Foro direto pros riacho, onde tem água pura e mato.

O Véio era realmente um sujeito miserávi, ele num murria, só si transformava. Assim ele ia, num caminho sem fim, que "só ele sabia onde estava". O cavalo, Arineu, por sua vez "veiaco", tinha um olho no Véio, outro no pasto.

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"Só um filósofo pra saber que ninguém tá certo, e ninguém tá errado, mas que se identifica com uma posição o otra..." – disse o Véio. E pôs-se a buscar Arineu onde estava, pois sabia que só ele poderia entender aquelas questões para as quais o papel era finito, e por fim tudo se afigurava vão. Arineu, que pastava num canto, logo viu que o Véio tava metido em "caraminholas", pois caminhava ao seu encontro como quem pedisse socorro. O Véio, a essas alturas quase morto, bastou em deixar-se cair ao chão, próximo a Arineu, que ajoelhou-se para ajudar o Véio a transpor toda aquela "carga" que a "cultura" tinha posto nas suas costa. Alguns dizem que morreu aos pés de Arineu, prostrado. Outros, que quando amanheceu lá estava apenas suas roupas, um chapéu e um blusão de couro. O Véio morreu... ou sei lá, mas hoje existe a história. Arineu, "cansado de sofrer" quer ir logo "para o lugar onde o Véio está" a que o Véio responde que "isso é uma burrice", e a confusão continua.

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Na solidão do rancho, o Véio amanhecido, pensava.

Ele pensava que sempre tinha umas paragens,

Na cabeça, nos sonhos,

Sempre continuava por algum lugar.

Agora que havia morrido, ele pensava o que seria dele,

Já que muitos sonhos tinham ficado pra trás.

Já tinha feito todo o possível pra se enquadrar lá na vila,

Mas tava enfim decidindo, que não ia se trocá por uns "pila".

Tinha pensado na andança, na "cruzança" desse chão,

E ficou ali meditando: e se fosse, tudo em vão?

Se fosse em vão não adiantava,

Na vida, cruzar caminhos,

E nem ter sonhos distantes,

Nem também sonhos pertinhos.

 

Ditos do Véio


O Véio disse que é filósofo formado no meio do mato, e tem umas idéia da roça.

"Minhas idéia firme foro robada pelos ladrão das estrada".

"Nóis ilhado, pensando o mundo".

Meditando, descobriu que era o Véio.

Depois de suas meditação, o Véio vortou a ser o que era, um sujeito desabitado.

"Enquanto trabalho, alimento sonhos".

Muitas vezes pegou o cavalo fingindo fraquejamento.

"A estrada envelhece o cabra. Ainda mais quando na estrada só tem cobra".

O "solipcismo", pro Véio, é ficar sozinho.

"Os livro estão cheio das biblioteca. O mundo está falho de atos".

"Feliz os que tem na mente o cerne da inteligência".

"Tive que fundar minha própria maneira de pensar" – disse o Véio.

"A física é teórica, e a filosofia é uma prática".

 

Perguntaram ao Véio sua "metodologia".

"Num semestre escrevo - disse -

Noutro, jogo os papéis fora".

 

"Eu bem preferia plantar abóbora e criar peixe".

"É tudo a mesma coisa. A televisão é as image do rádio, e o rádio é a voz da televisão".

A 'roça' não é um lugar imaginário, mas existe mesmo.

"Se a gente cuidá das pranta, arguém deve cuidá da gente..."

"O que passa na minha cabeça é o que eu mesmo criei. Eu sou um ser velho".

"Dá licença que eu tô de olho no silêncio".

"Uma arrancada... pra um retorno solidão".

"No costado da casa, inteligente, uma boiada".

"Falou no cavalo, falou no Véio".

"Meu cavalo ta arreado lá embaixo. Se não tem capim ele masca é o asfalto".

E o Véio seguia com seus procedimentos rudimentais.

 

Poesia do Véio

Eu vortei lá pro sertão

Ver o que a escola não deu

Lá meu sapato comeu

E o suor pingou no chão.

Todos meu conhecimento

Fui forçado a revisar

Acampado lá na serra

Com o fogo a estalar.

Lembrei da minha inocência

De quando eu era bem moço

Na cabeça o alvoroço

Das idéia a passear.

De que vale tudo isso

Frente a um fogão de terra

Tanta coisa "antinômica"

Nos fundão desta tapera?

A queda d'água mais selvagem

Me levei prá contemplar

Quando vi aquelas lage

Me lembrei do meu lugar

Mas depois saí contente

Lembrando do nosso sonho

Quando nóis lá na cidade

Tinha um vivê medonho.

 

Se apegô nas coisa simples

Depois de tantas bobage...

Mas prá estudá as estrela

Leva uns livro na bagage.

E depois de toda a lida

Com o cavalo na estalage,

O Véio puxa a viola

De um saco de viage...

 

 

Filósofos do Planalto Central - 2009