Dicionário de 'O ceticismo e a necessidade de sonhar - um guia da epistemologia do século XX'

 

Axiologia (fr. Axiologie) – a proposição de valores é uma atividade axiológica. Estima-se atualmente que o conhecimento tem sua origem na elaboração de ideais que nos permitem apreciar, tecer, julgar uma realidade, um objeto, uma proposição. O tema é estudado com profundidade por F. Nietzsche (1844-1900) e pelo filósofo alemão Wilhelm Windelband (1848-1915). As epistemologias atuais remetem as formações axiológicas às questões que suscitam aos indivíduos, suas relações com a natureza, a sociedade e a ciência, no tempo em que vivem.

Ceticismo (do grego Sképtikós: pensativo) – atividade crítica que empreende a negação dos enunciados conhecidos, a partir da compreensão de dificuldades próprias ao ato cognitivo, como o relativismo, a pluralidade e a ausência de parâmetros objetivos. Concepção  segundo a qual o conhecimento da realidade é impossível à razão humana, quando devemos portanto renunciar à certeza, suspender o juízo diante das coisas (epoché), submetendo toda afirmação a uma dúvida constante.

Advém de Pirro de Elida (360-275 a.C.), depois Sexto Empírico (séc II d.C.) – seu principal fundamentador clássico.

Tradicionalmente, distinguem-se no ceticismo clássico três etapas: epoché, zétezis e ataraxia:

Epoché - a suspensão do juízo que resulta da dúvida;

Zétezis - a busca incessante da certeza;

Ataraxia - a tranqüilidade que resulta do reconhecimento da impossibilidade de se atingir a certeza e da superação de conflito de opiniões. Na concepção cética, a especulação filosófica daria lugar à volta ao senso comum e à vida prática.

No pensamento moderno, o ceticismo é usado como forma de atacar o dogmatismo da escolástica, levando à adoção de uma concepção de conhecimento relativo. Pode-se dizer que o ceticismo inspira grande parte da atitude crítica contemporânea, como as questões dos limites e da relatividade do conhecimento, de que a epistemologia atual trata.

Cogito (lat. Cogitare: pensar) – para Descartes, o cogito ergo sun (penso, logo existo) é o primeiro princípio da filosofia, inaugurando uma revolução que consiste em partir da presença do pensamento e não da presença do mundo. A crítica cartesiana.

Criticismo (fr. Criticisme) – doutrina kantiana que estuda as condições de validade e os limites do uso que podemos fazer de nossa razão pura. Ver racionalismo crítico.

Empirismo (fr. Empirisme) - doutrina ou teoria segundo a qual todo conhecimento deriva, direta ou indiretamente, dos fatos, da experiência sensível. ‘Nada se encontra no espírito que não tenha antes, estado nos sentidos’. Locke e Hume demonstram no período moderno que não há outra fonte de conhecimento senão a experiência e a sensação.

Episteme (do gr. Episteme: ciência) – o termo foi utilizado por Michel Foucault (1926-1984) com a significação próxima a paradigma criada por Thomas Khun. Para ele o termo significa uma ‘rede de significados’, uma ‘formação discursiva’ que caracteriza uma determinada época. Neste caso a epistemologia seria uma ‘arqueologia do saber’.

‘A distinção platônica entre episteme (ciência) e doxa (opinião) deriva de Xenófanes, por meio de Parmênides. Platão percebia claramente que todo o conhecimento do mundo visível, o mundo cambiante das aparências, consiste na doxa; ele é tingido pela incerteza, mesmo quando utiliza ao máximo a episteme, ao interpretar o mundo cambiante com a ajuda de uma teoria do mundo invisível.’ (Karl Popper, Conjecturas e Refutações, UNB, Brasília, 1994 (Nota 18 - pág. 107).

Epistemologia (do gr. Episteme: ciência e Logos: lógica, teoria) - estudo de como podemos relacionar os significados (colocados pelo sujeito) às intenções e contexto específicos destes enunciados. Neste sentido diz-se que a epistemologia procura as fontes do conhecimento. Não as gerais, supostamente válidas para todos, mas as específicas, colocadas pelo sujeito, pelo indivíduo.

Passou a ser uma disciplina histórica e crítica, ao reavaliar os passos da ciência clássica e moderna, aumentando a consciência do saber como interpretação.

Disciplina que tem empreendido a mais radical reflexão sobre a axiologia, a linguagem, os costumes e tradições. Empreendendo a busca pelos valores que alicerçam os modos de vida contemporâneo, chega a estruturas singulares e associações de poder, que revelam induções culturais a que são submetidas as massas.

Especulação (lat. Speculatio) – emprego da razão em questões de ordem abstrata e distantes da experiência concreta, na forma de formulação de hipóteses. No pensamento moderno, por influência do empirismo e do racionalismo crítico, a especulação adquiriu um sentido negativo, denotando um uso gratuito e inverificável da razão, cujos resultados por este motivo não são comprováveis nem confiáveis.

Contudo, segundo as obras dos principais teóricos do conhecimento contemporâneo, a especulação (hipótese) é a forma com que nosso conhecimento evolui, considerados o conhecimento da tradição (‘subimos uns nos ombros dos outros’), a crítica e as conquistas sobre os conhecimentos empíricos (física).

Estruturalismo (fr. structuralisme) – fundado por Ferdinand de Saussure (1857-1913). ‘O todo a partir de suas partes constitutivas’ (estrutura).

Eu (filosofia do) – marco do início do pensamento moderno, com René Descartes, reconhecer o ‘penso logo existo’ significa exceder os limites de nossa experiência. É a inauguração da filosofia do sujeito.

Evidência (lat. Evidentia) – termo usado para designar a ‘evidência empírica’, isto é, a demonstração de que uma determinada teoria ‘condiz’ com os fatos. Posteriormente a filosofia da ciência questionou a evidência, por sugerir que ela continha uma manipulação teórica: a descrição dos ‘fatos’ seria montada para que a evidência fosse encontrada. Isso provocou a reação de Karl Popper ao Círculo de Viena, quando, procurando uma saída para o problema, concluiu que a evidência, a comprovação com os fatos não era a melhor teoria de ciência, mas sim a tentativa de refutação das afirmações hipotéticas, através da crítica e dos fatos.

A evidência na História da Ciência, também não é sinônimo de certeza. Célebre é o caso de Galileu, que comprovou através do aperfeiçoamento do telescópio, que o sol não gira em torno da terra – como parece evidente. É a terra que gira em torno ao sol, o que contraria todas as evidências.

Para Descartes, somente a evidência intelectual pode constituir critério de objetividade.

Experiência (lat. Experientia) – Para o empirismo, todo o conhecimento deriva da experiência. Para o racionalismo, ao contrário, a experiência nada nos ensina, pois é aquilo que precisa ser explicado, não havendo experiência que não esteja impregnada de teoria.

Fenômeno (grego phainomenon, de phainesthai: aparecer) – o fenômeno é a experiência psicológica de um sujeito, o que ele percebe a partir de seu conjunto formativo, sua intenção, suas influências. Os ‘fatos’ e evidências que parecem a cada um são oriundos de sua situação. Assim, os fenômenos são distintos a cada um, conforme o conjunto de condições, num momento dado, o faz perceber.

Fenomenologia – conceito criado por Jean Lambert e difundido por Hegel.

Corrente filosófica fundada por Edmund Husserl que procura uma ‘volta às coisas mesmas’ isto é, aos fenômenos, o que aparece à consciência, que se dá como seu objeto intencional. Visa descrever os fenômenos presentes na consciência, e não nos fatos físicos e biológicos.

Surgiu como tentativa de um método de fundamentação da ciência e de constituição da filosofia como ciência rigorosa. Após as contribuições de Merleau-Ponty e outros contemporâneos, atualmente a fenomenologia pode ser comparada à epistemologia, ou seja, à consciência de que o sujeito tem atividade intencional e contextual. Só levando em conta tais fatores é que pode ser compreendida sua proposição fenomenológica específica. Neste sentido, segundo os termos da epistemologia clássica, tudo é doxa. Opinião e contexto.

Filosofia analítica – corrente de pensamento filosófico que se desenvolveu sobretudo na Inglaterra e Estados Unidos a partir do início do séc. XX, com base na influência de filósofos como Gottlob Frege, Bertrand Russell, George Edward Moore, Ludwig Wittgenstein, entre outros. Caracteriza-se, em linhas gerais, pela concepção de que ‘a lógica e a teoria do significado ocupam um papel central na filosofia, sendo sua tarefa básica a análise lógica das sentenças, através do que se obteria solução dos problemas filosóficos. Há diferentes formas de se conceber esta análise. A filosofia analítica levou a desenvolvimentos nos estudos da linguagem, da semântica, da axiologia.

Fonte, fundamento – a filosofia utiliza este termo para designar aquilo – um objeto ou uma proposição intencional - sobre o que repousa certo conhecimento. Assim, o fundamento de um conjunto de proposições é a primeira verdade sobre a qual elas são deduzidas.

Hermenêutica (gr. Hermeneutikós, de hermeneuein: interpretar) – contemporaneamente, constitui uma reflexão filosófica sobre os símbolos e os mitos em geral. O filósofo Paul Ricoeur, por exemplo, fala de uma hermenêutica que culmina numa ‘teoria do conhecimento’ oscilando entre uma leitura ‘psicanalítica’ e uma fenomenológica. O alemão Gadamer fala do homo hermenêuticus, definindo a vida humana como experiência interpretativa.

Imaginação (lat. Imaginatio) – faculdade do pensamento onde se produzem conceitos e imagens (representações). Se a ciência clássica e moderna desconsideraram a importância da imaginação na fabricação do conhecimento, buscando uma visão objetiva e generalizante, a partir da crítica racional de Kant, da antropologia axiológica empreendida por F. Nietzsche e da obra de filósofos da ciência contemporâneos, como Gaston Bachelard, atualmente é forte a consideração de que os elementos inaugurados pela imaginação são fundamentais na composição do conhecimento.

O grego Cornélius Castoriadis (1922-1997) com sua obra A instituição imaginária da sociedade (1975), e o alemão  Ernst Cassirer (1874 – 1945) com A filosofia das formas simbólicas (1923) e Ensaio sobre o homem (1944) são boas referências.

Alguns de seus estudiosos atuais são de escola francesa, como Edgar Morin (1921), que publicou O paradigma perdido: a natureza humana (1973) e Ciência com Consciência (1994), assim como Gilbert Durand (1921) que publicou As estruturas antropológicas do imaginário (1992).

Intencionalidade – conceito que vem da escolástica, retomado por Franz Brentano e depois por Edmund Husserl. Ocupa lugar central na fenomenologia, definindo a consciência como intencional, como voltada para uma elaboração própria de significado. A intenção gera e dirige o objeto de ciência.

O tema foi desenvolvido por filósofos como Kant (‘Não descobrimos leis na natureza, mas as impomos’), F. Nietzsche, Henri Bérgson, Gadamer e Merleau-Ponty.

John Searle dedicou uma obra ao conceito (Intencionalidade - 1983).

Intersubjetividade – sendo a crítica o que regula a ciência, este conceito responde pelo ‘resultado crítico’ das opiniões e avanços teóricos de uma época, de uma comunidade.

O termo é utilizado para designar o paradigma vigente de uma época, ou seja, o ‘conjunto de concordâncias e discordâncias’ de alguns sujeitos quanto ao sentido de algo, de um assunto, disciplina ou meta (objetivo).

Necessidade de sonhar – impulso que impele o ser humano a refletir e a buscar explicações e arranjos, descrições e sentidos para si mesmo e para o ‘mundo’. Daí advém sua representação. Ao que parece, a formação conceitual advinda desta atividade é um resultado singular (resulta na singularidade da representação do indivíduo).

Neutralidade – a ciência seria neutra na medida em que é fatual, descritiva, ocupando-se com a descrição e a explicação dos fenômenos, sem emitir juízos de valor (axiologia). Foi a busca da filosofia analítica, por exemplo, a partir do Círculo de Viena.

Deve-se reconhecer porém, que o conhecimento científico enquanto realizado por indivíduos e  situado em um contexto histórico-social, corresponde a interesses, valores, preconceitos, dos próprios indivíduos e a pressões dos grupos que patrocinam este conhecimento, ou da sociedade que os recebe e utiliza. A ciência não estaria, assim, imune a elementos ideológicos, não poderia ser neutra. O filósofo Paul Feyerabend desenvolveu o tema em sua obra Contra o Método (1975).

Objetividade – tentativa histórica da filosofia e das ciências clássicas e modernas de constituir uma ciência que se afaste da subjetividade, baseando suas observações em conclusões lógicas (Platão, Kant) ou em observações controladas, medidas e experimentadas. (Aristóteles, Galileu, Bacon, Newton).

Alguns filósofos modernos, contudo, passam a reconhecer a experiência intelectual singular (Descartes) e a particularidade das buscas e propostas científicas de uma época (fenomenologia).

Atualmente a objetividade científica é definida como o conjunto de teorias físicas que apesar da crítica teórica e da confrontação com fatos e experimentos, sobrevivem.

A objetividade filosófica propriamente, não existe. Mas há um conjunto de metodologias interdisciplinares desenvolvidas pela filosofia e pela crítica da ciência (epistemologia), principalmente de regulação cognitiva (crítica). Esta atividade estabelece as conquistas da tradição, alertando e atualizando os cortes epistemológicos, isto é, os pontos somente a partir dos quais a filosofia é contemporânea.

Opinião (do gr. Doxa) – juízo realizado por um sujeito, a opinião é sempre relativa às circunstâncias de quem a emite.

Pode ser especializada, quando emitida por um indivíduo capacitado, ciente da tradição disciplinar a respeito.

Pode ser popular, quando advinda de ‘livre conjectura popular’, a partir de diálogos sobre os fatos do dia-a-dia. O ‘jogar conversa fora’ do povo.

Originário – Na filosofia kantiana, considera-se originária a unidade sintética da percepção, o ‘eu penso’ que estabelece o elo de toda diversidade conceitual ou sensível, ‘sem o qual minhas representações não seriam nada para mim’.

Pré-juízos – juízos antecipados, ‘antecipações mentais’ (elaboração teórica) estudadas por alguns filósofos desde a antiguidade clássica. Pode-se ver sinais desta consciência em Xenófanes de Cólofon (‘a respeito de tudo existe uma opinião’) e em Heráclito (‘cada um se revira no seu próprio leito’).

Kant enuncia que o entendimento prescreve leis à natureza.

Nietzsche fala das ficções lógicas do sujeito.

Karl Popper chama de conjecturas ousadas os processos de livre proposição de hipóteses dos pré-socráticos.

Thomas Kuhn nomeia a ‘formação cultural de uma época’ de estruturação de paradigmas.

Franz Brentano, Edmund Husserl, Merleau-Ponty e John Searle são teóricos da intencionalidade – um dos elementos pré-formadores do conhecimento.

O francês Alain Badiou nos fala das apostas, das hipóteses antecipantes e dos forçamentos teóricos.

O conceito pré-juízo é utilizado pelo filósofo brasileiro Lúcio Packter, sistematizador da Filosofia Clínica, a partir da obra do alemão Hans-Georg Gadamer, que assim nomeia os juízos a priori que fazemos a respeito dos fenômenos, fatos ou acontecimentos.

Prenoção (do lat. praenotio: conhecimento antecipado) – em um sentido amplo, noções gerais , de natureza implícita e de sentido pouco preciso, que se originam da experiência dos indivíduos, sem elaboração teórica ou conceitual.

Na filosofia clássica, sobretudo no estoicismo e no epicurismo, era entendido um ‘conhecimento pré-teórico’ (prolepse), natural e espontâneo, inato ou oriundo da experiência prática dos indivíduos, e anterior a qualquer elaboração ou reflexão.

Racionalismo crítico – doutrina desenvolvida a partir de Kant que versa sobre os limites internos da razão em sua aplicação no conhecimento do real. Desenvolvido no séc. XX por Karl Popper.

Representação (lat. Repraesentatio) – operação pela qual a mente tem presente em si mesma uma imagem, uma idéia ou um conceito correspondendo a um objeto externo.

A função da representação é exatamente a de tornar presente à consciência a realidade externa, tornando-a um objeto de consciência, estabelecendo assim a relação entre a consciência e o real.

O conceito ganha força pelas diferentes tomadas intencionais e diferentes usos da linguagem (confusão conceitual).

Singularidade – tendência filosófica contemporânea inaugurada pelo conjunto da obra da epistemologia do séc. XX. Atualmente, significa o aumento da percepção de que as representações cognitivas são singulares, isto é, próprias ao indivíduo que as produz. Fruto da falência da idéia de objetividade científica. Outra forma de se nomear a filosofia do sujeito, a situabilidade do conhecimento.

‘Merleau Ponty havia já sublinhado essa urgência, a urgência de pensar aquilo a que chamava de verdade na situação: ‘enquanto guardo em minha posse o ideal de um espectador absoluto, de um conhecimento sem ponto de vista, não posso ver em minha situação senão um princípio de erro.’ (Prigogine & Stengers, A Nova Aliança, p. 215)

Conceito sugerido pelo filósofo contemporâneo Lúcio Packer, ao avaliar a manifestação da dinâmica existencial desenvolvida pelo indivíduo. O conceito é desenvolvido por Hélio Strassburger em Filosofia Clínica: poéticas de singularidade (2007).

 

 

 Filósofos do Planalto Central - 2008

Dicionário

 

Dicionário de 'O ceticismo e a necessidade de sonhar - um guia da epistemologia do século XX'

 

Axiologia (fr. Axiologie) – a proposição de valores é uma atividade axiológica. Estima-se atualmente que o conhecimento tem sua origem na elaboração de ideais que nos permitem apreciar, tecer, julgar uma realidade, um objeto, uma proposição. O tema é estudado com profundidade por F. Nietzsche (1844-1900) e pelo filósofo alemão Wilhelm Windelband (1848-1915). As epistemologias atuais remetem as formações axiológicas às questões que suscitam aos indivíduos, suas relações com a natureza, a sociedade e a ciência, no tempo em que vivem.

Ceticismo (do grego Sképtikós: pensativo) – atividade crítica que empreende a negação dos enunciados conhecidos, a partir da compreensão de dificuldades próprias ao ato cognitivo, como o relativismo, a pluralidade e a ausência de parâmetros objetivos. Concepção  segundo a qual o conhecimento da realidade é impossível à razão humana, quando devemos portanto renunciar à certeza, suspender o juízo diante das coisas (epoché), submetendo toda afirmação a uma dúvida constante.

Advém de Pirro de Elida (360-275 a.C.), depois Sexto Empírico (séc II d.C.) – seu principal fundamentador clássico.

Tradicionalmente, distinguem-se no ceticismo clássico três etapas: epoché, zétezis e ataraxia:

Epoché - a suspensão do juízo que resulta da dúvida;

Zétezis - a busca incessante da certeza;

Ataraxia - a tranqüilidade que resulta do reconhecimento da impossibilidade de se atingir a certeza e da superação de conflito de opiniões. Na concepção cética, a especulação filosófica daria lugar à volta ao senso comum e à vida prática.

No pensamento moderno, o ceticismo é usado como forma de atacar o dogmatismo da escolástica, levando à adoção de uma concepção de conhecimento relativo. Pode-se dizer que o ceticismo inspira grande parte da atitude crítica contemporânea, como as questões dos limites e da relatividade do conhecimento, de que a epistemologia atual trata.

Cogito (lat. Cogitare: pensar) – para Descartes, o cogito ergo sun (penso, logo existo) é o primeiro princípio da filosofia, inaugurando uma revolução que consiste em partir da presença do pensamento e não da presença do mundo. A crítica cartesiana.

Criticismo (fr. Criticisme) – doutrina kantiana que estuda as condições de validade e os limites do uso que podemos fazer de nossa razão pura. Ver racionalismo crítico.

Empirismo (fr. Empirisme) - doutrina ou teoria segundo a qual todo conhecimento deriva, direta ou indiretamente, dos fatos, da experiência sensível. ‘Nada se encontra no espírito que não tenha antes, estado nos sentidos’. Locke e Hume demonstram no período moderno que não há outra fonte de conhecimento senão a experiência e a sensação.

Episteme (do gr. Episteme: ciência) – o termo foi utilizado por Michel Foucault (1926-1984) com a significação próxima a paradigma criada por Thomas Khun. Para ele o termo significa uma ‘rede de significados’, uma ‘formação discursiva’ que caracteriza uma determinada época. Neste caso a epistemologia seria uma ‘arqueologia do saber’.

‘A distinção platônica entre episteme (ciência) e doxa (opinião) deriva de Xenófanes, por meio de Parmênides. Platão percebia claramente que todo o conhecimento do mundo visível, o mundo cambiante das aparências, consiste na doxa; ele é tingido pela incerteza, mesmo quando utiliza ao máximo a episteme, ao interpretar o mundo cambiante com a ajuda de uma teoria do mundo invisível.’ (Karl Popper, Conjecturas e Refutações, UNB, Brasília, 1994 (Nota 18 - pág. 107).

Epistemologia (do gr. Episteme: ciência e Logos: lógica, teoria) - estudo de como podemos relacionar os significados (colocados pelo sujeito) às intenções e contexto específicos destes enunciados. Neste sentido diz-se que a epistemologia procura as fontes do conhecimento. Não as gerais, supostamente válidas para todos, mas as específicas, colocadas pelo sujeito, pelo indivíduo.

Passou a ser uma disciplina histórica e crítica, ao reavaliar os passos da ciência clássica e moderna, aumentando a consciência do saber como interpretação.

Disciplina que tem empreendido a mais radical reflexão sobre a axiologia, a linguagem, os costumes e tradições. Empreendendo a busca pelos valores que alicerçam os modos de vida contemporâneo, chega a estruturas singulares e associações de poder, que revelam induções culturais a que são submetidas as massas.

Especulação (lat. Speculatio) – emprego da razão em questões de ordem abstrata e distantes da experiência concreta, na forma de formulação de hipóteses. No pensamento moderno, por influência do empirismo e do racionalismo crítico, a especulação adquiriu um sentido negativo, denotando um uso gratuito e inverificável da razão, cujos resultados por este motivo não são comprováveis nem confiáveis.

Contudo, segundo as obras dos principais teóricos do conhecimento contemporâneo, a especulação (hipótese) é a forma com que nosso conhecimento evolui, considerados o conhecimento da tradição (‘subimos uns nos ombros dos outros’), a crítica e as conquistas sobre os conhecimentos empíricos (física).

Estruturalismo (fr. structuralisme) – fundado por Ferdinand de Saussure (1857-1913). ‘O todo a partir de suas partes constitutivas’ (estrutura).

Eu (filosofia do) – marco do início do pensamento moderno, com René Descartes, reconhecer o ‘penso logo existo’ significa exceder os limites de nossa experiência. É a inauguração da filosofia do sujeito.

Evidência (lat. Evidentia) – termo usado para designar a ‘evidência empírica’, isto é, a demonstração de que uma determinada teoria ‘condiz’ com os fatos. Posteriormente a filosofia da ciência questionou a evidência, por sugerir que ela continha uma manipulação teórica: a descrição dos ‘fatos’ seria montada para que a evidência fosse encontrada. Isso provocou a reação de Karl Popper ao Círculo de Viena, quando, procurando uma saída para o problema, concluiu que a evidência, a comprovação com os fatos não era a melhor teoria de ciência, mas sim a tentativa de refutação das afirmações hipotéticas, através da crítica e dos fatos.

A evidência na História da Ciência, também não é sinônimo de certeza. Célebre é o caso de Galileu, que comprovou através do aperfeiçoamento do telescópio, que o sol não gira em torno da terra – como parece evidente. É a terra que gira em torno ao sol, o que contraria todas as evidências.

Para Descartes, somente a evidência intelectual pode constituir critério de objetividade.

Experiência (lat. Experientia) – Para o empirismo, todo o conhecimento deriva da experiência. Para o racionalismo, ao contrário, a experiência nada nos ensina, pois é aquilo que precisa ser explicado, não havendo experiência que não esteja impregnada de teoria.

Fenômeno (grego phainomenon, de phainesthai: aparecer) – o fenômeno é a experiência psicológica de um sujeito, o que ele percebe a partir de seu conjunto formativo, sua intenção, suas influências. Os ‘fatos’ e evidências que parecem a cada um são oriundos de sua situação. Assim, os fenômenos são distintos a cada um, conforme o conjunto de condições, num momento dado, o faz perceber.

Fenomenologia – conceito criado por Jean Lambert e difundido por Hegel.

Corrente filosófica fundada por Edmund Husserl que procura uma ‘volta às coisas mesmas’ isto é, aos fenômenos, o que aparece à consciência, que se dá como seu objeto intencional. Visa descrever os fenômenos presentes na consciência, e não nos fatos físicos e biológicos.

Surgiu como tentativa de um método de fundamentação da ciência e de constituição da filosofia como ciência rigorosa. Após as contribuições de Merleau-Ponty e outros contemporâneos, atualmente a fenomenologia pode ser comparada à epistemologia, ou seja, à consciência de que o sujeito tem atividade intencional e contextual. Só levando em conta tais fatores é que pode ser compreendida sua proposição fenomenológica específica. Neste sentido, segundo os termos da epistemologia clássica, tudo é doxa. Opinião e contexto.

Filosofia analítica – corrente de pensamento filosófico que se desenvolveu sobretudo na Inglaterra e Estados Unidos a partir do início do séc. XX, com base na influência de filósofos como Gottlob Frege, Bertrand Russell, George Edward Moore, Ludwig Wittgenstein, entre outros. Caracteriza-se, em linhas gerais, pela concepção de que ‘a lógica e a teoria do significado ocupam um papel central na filosofia, sendo sua tarefa básica a análise lógica das sentenças, através do que se obteria solução dos problemas filosóficos. Há diferentes formas de se conceber esta análise. A filosofia analítica levou a desenvolvimentos nos estudos da linguagem, da semântica, da axiologia.

Fonte, fundamento – a filosofia utiliza este termo para designar aquilo – um objeto ou uma proposição intencional - sobre o que repousa certo conhecimento. Assim, o fundamento de um conjunto de proposições é a primeira verdade sobre a qual elas são deduzidas.

Hermenêutica (gr. Hermeneutikós, de hermeneuein: interpretar) – contemporaneamente, constitui uma reflexão filosófica sobre os símbolos e os mitos em geral. O filósofo Paul Ricoeur, por exemplo, fala de uma hermenêutica que culmina numa ‘teoria do conhecimento’ oscilando entre uma leitura ‘psicanalítica’ e uma fenomenológica. O alemão Gadamer fala do homo hermenêuticus, definindo a vida humana como experiência interpretativa.

Imaginação (lat. Imaginatio) – faculdade do pensamento onde se produzem conceitos e imagens (representações). Se a ciência clássica e moderna desconsideraram a importância da imaginação na fabricação do conhecimento, buscando uma visão objetiva e generalizante, a partir da crítica racional de Kant, da antropologia axiológica empreendida por F. Nietzsche e da obra de filósofos da ciência contemporâneos, como Gaston Bachelard, atualmente é forte a consideração de que os elementos inaugurados pela imaginação são fundamentais na composição do conhecimento.

O grego Cornélius Castoriadis (1922-1997) com sua obra A instituição imaginária da sociedade (1975), e o alemão  Ernst Cassirer (1874 – 1945) com A filosofia das formas simbólicas (1923) e Ensaio sobre o homem (1944) são boas referências.

Alguns de seus estudiosos atuais são de escola francesa, como Edgar Morin (1921), que publicou O paradigma perdido: a natureza humana (1973) e Ciência com Consciência (1994), assim como Gilbert Durand (1921) que publicou As estruturas antropológicas do imaginário (1992).

Intencionalidade – conceito que vem da escolástica, retomado por Franz Brentano e depois por Edmund Husserl. Ocupa lugar central na fenomenologia, definindo a consciência como intencional, como voltada para uma elaboração própria de significado. A intenção gera e dirige o objeto de ciência.

O tema foi desenvolvido por filósofos como Kant (‘Não descobrimos leis na natureza, mas as impomos’), F. Nietzsche, Henri Bérgson, Gadamer e Merleau-Ponty.

John Searle dedicou uma obra ao conceito (Intencionalidade - 1983).

Intersubjetividade – sendo a crítica o que regula a ciência, este conceito responde pelo ‘resultado crítico’ das opiniões e avanços teóricos de uma época, de uma comunidade.

O termo é utilizado para designar o paradigma vigente de uma época, ou seja, o ‘conjunto de concordâncias e discordâncias’ de alguns sujeitos quanto ao sentido de algo, de um assunto, disciplina ou meta (objetivo).

Necessidade de sonhar – impulso que impele o ser humano a refletir e a buscar explicações e arranjos, descrições e sentidos para si mesmo e para o ‘mundo’. Daí advém sua representação. Ao que parece, a formação conceitual advinda desta atividade é um resultado singular (resulta na singularidade da representação do indivíduo).

Neutralidade – a ciência seria neutra na medida em que é fatual, descritiva, ocupando-se com a descrição e a explicação dos fenômenos, sem emitir juízos de valor (axiologia). Foi a busca da filosofia analítica, por exemplo, a partir do Círculo de Viena.

Deve-se reconhecer porém, que o conhecimento científico enquanto realizado por indivíduos e  situado em um contexto histórico-social, corresponde a interesses, valores, preconceitos, dos próprios indivíduos e a pressões dos grupos que patrocinam este conhecimento, ou da sociedade que os recebe e utiliza. A ciência não estaria, assim, imune a elementos ideológicos, não poderia ser neutra. O filósofo Paul Feyerabend desenvolveu o tema em sua obra Contra o Método (1975).

Objetividade – tentativa histórica da filosofia e das ciências clássicas e modernas de constituir uma ciência que se afaste da subjetividade, baseando suas observações em conclusões lógicas (Platão, Kant) ou em observações controladas, medidas e experimentadas. (Aristóteles, Galileu, Bacon, Newton).

Alguns filósofos modernos, contudo, passam a reconhecer a experiência intelectual singular (Descartes) e a particularidade das buscas e propostas científicas de uma época (fenomenologia).

Atualmente a objetividade científica é definida como o conjunto de teorias físicas que apesar da crítica teórica e da confrontação com fatos e experimentos, sobrevivem.

A objetividade filosófica propriamente, não existe. Mas há um conjunto de metodologias interdisciplinares desenvolvidas pela filosofia e pela crítica da ciência (epistemologia), principalmente de regulação cognitiva (crítica). Esta atividade estabelece as conquistas da tradição, alertando e atualizando os cortes epistemológicos, isto é, os pontos somente a partir dos quais a filosofia é contemporânea.

Opinião (do gr. Doxa) – juízo realizado por um sujeito, a opinião é sempre relativa às circunstâncias de quem a emite.

Pode ser especializada, quando emitida por um indivíduo capacitado, ciente da tradição disciplinar a respeito.

Pode ser popular, quando advinda de ‘livre conjectura popular’, a partir de diálogos sobre os fatos do dia-a-dia. O ‘jogar conversa fora’ do povo.

Originário – Na filosofia kantiana, considera-se originária a unidade sintética da percepção, o ‘eu penso’ que estabelece o elo de toda diversidade conceitual ou sensível, ‘sem o qual minhas representações não seriam nada para mim’.

Pré-juízos – juízos antecipados, ‘antecipações mentais’ (elaboração teórica) estudadas por alguns filósofos desde a antiguidade clássica. Pode-se ver sinais desta consciência em Xenófanes de Cólofon (‘a respeito de tudo existe uma opinião’) e em Heráclito (‘cada um se revira no seu próprio leito’).

Kant enuncia que o entendimento prescreve leis à natureza.

Nietzsche fala das ficções lógicas do sujeito.

Karl Popper chama de conjecturas ousadas os processos de livre proposição de hipóteses dos pré-socráticos.

Thomas Kuhn nomeia a ‘formação cultural de uma época’ de estruturação de paradigmas.

Franz Brentano, Edmund Husserl, Merleau-Ponty e John Searle são teóricos da intencionalidade – um dos elementos pré-formadores do conhecimento.

O francês Alain Badiou nos fala das apostas, das hipóteses antecipantes e dos forçamentos teóricos.

O conceito pré-juízo é utilizado pelo filósofo brasileiro Lúcio Packter, sistematizador da Filosofia Clínica, a partir da obra do alemão Hans-Georg Gadamer, que assim nomeia os juízos a priori que fazemos a respeito dos fenômenos, fatos ou acontecimentos.

Prenoção (do lat. praenotio: conhecimento antecipado) – em um sentido amplo, noções gerais , de natureza implícita e de sentido pouco preciso, que se originam da experiência dos indivíduos, sem elaboração teórica ou conceitual.

Na filosofia clássica, sobretudo no estoicismo e no epicurismo, era entendido um ‘conhecimento pré-teórico’ (prolepse), natural e espontâneo, inato ou oriundo da experiência prática dos indivíduos, e anterior a qualquer elaboração ou reflexão.

Racionalismo crítico – doutrina desenvolvida a partir de Kant que versa sobre os limites internos da razão em sua aplicação no conhecimento do real. Desenvolvido no séc. XX por Karl Popper.

Representação (lat. Repraesentatio) – operação pela qual a mente tem presente em si mesma uma imagem, uma idéia ou um conceito correspondendo a um objeto externo.

A função da representação é exatamente a de tornar presente à consciência a realidade externa, tornando-a um objeto de consciência, estabelecendo assim a relação entre a consciência e o real.

O conceito ganha força pelas diferentes tomadas intencionais e diferentes usos da linguagem (confusão conceitual).

Singularidade – tendência filosófica contemporânea inaugurada pelo conjunto da obra da epistemologia do séc. XX. Atualmente, significa o aumento da percepção de que as representações cognitivas são singulares, isto é, próprias ao indivíduo que as produz. Fruto da falência da idéia de objetividade científica. Outra forma de se nomear a filosofia do sujeito, a situabilidade do conhecimento.

‘Merleau Ponty havia já sublinhado essa urgência, a urgência de pensar aquilo a que chamava de verdade na situação: ‘enquanto guardo em minha posse o ideal de um espectador absoluto, de um conhecimento sem ponto de vista, não posso ver em minha situação senão um princípio de erro.’ (Prigogine & Stengers, A Nova Aliança, p. 215)

Conceito sugerido pelo filósofo contemporâneo Lúcio Packer, ao avaliar a manifestação da dinâmica existencial desenvolvida pelo indivíduo. O conceito é desenvolvido por Hélio Strassburger em Filosofia Clínica: poéticas de singularidade (2007).

 

 

 Filósofos do Planalto Central - 2008