Fundamentação
O ceticismo e a necessidade de sonhar - um guia da epistemologia do século XX
Fundamentação
Publicamos este conjunto de citações a fim de que o leitor possa acompanhar a evolução lógico-crítica e a abertura poética que se produziu desde a modernidade na obra de alguns pensadores, em especial durante o último século. Estas impressões conduzem à descrição por nós ensaiada.
Informamos entre parêntesis as páginas de onde foram extraídas as citações, conforme as edições utilizadas: bibliografia.
Immanuel Kant (1724-1804) em Prolegômenos à toda metafísica futura:
‘ ... são nos dadas coisas como objetos de nossos sentidos, existentes fora de nós, só que nada sabemos do que elas possam ser em si mesmas, mas conhecemos apenas seus fenômenos, isto é, as representações que produzem em nós ao afetarem nossos sentidos.’ (125)
‘O entendimento não cria suas leis a partir da natureza, mas as prescreve à mesma.’ (147)
‘Metafísica, como disposição da natureza da razão, é real, mas é também, por si mesma (...) dialética e ilusória. Pretender tirar desta, portanto, os princípios e seguir no uso dos mesmos uma ilusão, natural, é certo, mas nem por isso menos falso, nunca pode constituir uma ciência, mas somente uma arte dialética vã, na qual uma escola supera a outra, não logrando nenhuma, porém, um aplauso legítimo e duradouro.’ (181)
‘Existirá, portanto, sempre no mundo e, mais ainda, em todo homem, principalmente naquele que reflete, a metafísica, que, em falta de uma medida pública, será talhada por cada um à sua maneira.’ (182)
‘ ... nada mais absurdo pode ser encontrado do que pretender, numa filosofia da razão pura, fundar seus juízos na probabilidade e na suposição.’ (184)
‘O princípio que rege e determina constantemente meu idealismo é, ao contrário: ‘Todo conhecimento das coisas, tirado unicamente do entendimento puro ou da razão pura, nada mais é que ilusão, só na experiência há verdade.’ (187)
Friedrich Nietzsche (1844-1900)
‘No tocante à metafísica filosófica, vejo cada vez um número maior daqueles que chegaram ao alvo negativo (que toda metafísica positiva é um erro).’ (96)
‘ ...estamos inclinados a afirmar por princípio, que sem um deixar valer as ficções lógicas, (...) o homem não poderia viver.’ (270)
‘Todos os valores com os quais até agora procuramos tornar o mundo estimável para nós e afinal, justamente com eles, o desvaloramos, quando eles se demonstram inaplicáveis – todos esses valores são, do ponto de vista psicológico, resultados de determinadas perspectivas de utilidade para a manutenção e intensificação de formações humanas de dominação: apenas falsamente projetadas na essência das coisas. É sempre ainda a hiperbólica ingenuidade do homem: colocar a si mesmo como sentido e medida de valor das coisas.’(Vontade de Potência, Par. 12).
‘Tudo o que pode ser pensado será necessariamente uma ficção’. (Vontade de Potência, par. 276)
‘Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero está o conhecimento de que o ilógico é necessário para o homem e de que do ilógico nasce muito de bom. Ele está tão firmemente implantado nas paixões, na linguagem, na religião e em geral em tudo aquilo que empresta valor à vida, que não se pode extraí-lo sem com isso danificar irremediavelmente essas belas coisas. São somente os homens demasiado ingênuos que podem acreditar que a natureza do homem possa ser transformada em uma natureza puramente lógica; mas se houver graus de aproximação desse alvo, o que não haveria de se perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa outra vez, de tempo em tempo, da natureza, isto é, de sua postura fundamental ilógica diante de todas as coisas”. (Humano, demasiado humano, Par. 31)
‘Como gênio construtivo o homem se eleva, nessa medida, muito acima da abelha: esta constrói com cera, que recolhe da natureza, ele com a matéria muito mais tênue dos conceitos, que antes tem de fabricar a partir de si mesmo’. (Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, Par. 01, p. 49/50 – Os Pensadores.)
‘Quanto mais nos aprofundamos na compreensão da origem, aumenta a falta de significação da origem.’ (Aurora, par. 44, pág.164)
Alfred Whitehead (1861-1947) em A Função da Razão (1929):
‘Todos começamos por sermos empíricos, mas nosso empirismo está confinado dentro dos limites de nossos interesses imediatos.’ (7)
‘A produção de um esquema científico representa um grande esforço da razão especulativa. Envolve uma imaginação que se estende muito além das observações diretas. O conjunto interligado de noções de categorias, que constitui o esquema, possibilita uma extrapolação derivativa, em razão do poder construtivo da lógica dedutiva.’ (34)
‘A evidência é confusa, ambígua e contraditória, (...) e se, em qualquer período da história humana ela tivesse sido aceita como definitiva, isso teria ocasionado a paralização de todo o progresso.’ (39)
Albert Einstein (1879-1955) em Como vejo o mundo (1934):
‘... procurar as leis elementares mais gerais, a partir das quais, por pura dedução, se adquire uma imagem do mundo. Nenhum caminho lógico leva a tais elementares. Seria antes exclusivamente uma intuição a desenvolver-se paralelamente à experiência.’ (140)
‘Nenhum daqueles que realmente aprofundaram o assunto negará que o mundo das percepções determina de fato rigorosamente o sistema teórico, embora nenhum caminho lógico conduza das percepções aos princípios das teorias.’
‘A inteligência elucida para nós a inter-relação entre meios e fins. O mero pensamento não pode, contudo, nos dar uma consciência dos fins últimos e fundamentais. Elucidar esses fins e valores fundamentais é engastá-los firmemente na vida emocional do indivíduo’.
Merleau Ponty (1908-1961) na Fenomenologia da Percepção (1945):
‘Portanto, não é preciso perguntar-se se nós percebemos verdadeiramente um mundo, é preciso dizer, ao contrário: o mundo é aquilo que nós percebemos’. (13)
‘Kant mostrou, na Refutação do Idealismo, que a percepção interior é impossível sem percepção exterior, que o mundo, enquanto conexão dos fenômenos, é o meio para mim de realizar-me como consciência.’ (15)
‘A aquisição mais importante da fenomenologia foi sem dúvida ter unido o extremo subjetivismo ao extremo objetivismo em sua noção do mundo ou da racionalidade.’ (17)
‘... assistimos a cada instante, a este prodígio da conexão das experiências, e ninguém sabe melhor do que nós como ele se dá, já que nós somos este laço de relações.’ (19)
Jacob Bronowski (1908–1974) em As origens do conhecimento e da imaginação (1978):
‘Não há nada que nos ajude na decodificação. Temos de fazê-la por um ato de pura imaginação.’ (39)
‘Fazemos a decodificação através de um quadro criativo, altamente imaginativo de conjecturas.’ (43)
‘É a axiomatização, é a formalização do sistema que produz o problema.’ (48)
‘Este é o problema que persegue todos os sistemas formais, o problema da auto-referência; ou seja, a linguagem ser utilizada para referir-se a sentenças da própria linguagem.’ (49)
‘Este é o teorema da imperfeição.’ (52)
‘A própria percepção é um mecanismo em que as sensações são instantaneamente interpretadas por um processo inferencial.’ (55)
Karl Popper (1902-1994) em Conjecturas e Refutações (1963):
‘A crença de que podemos começar exclusivamente com observações, sem qualquer teoria é um absurdo.’ (76)
‘A observação é seletiva: exige um objeto, uma tarefa definida, um ponto de vista, um interesse especial, um problema.’ (76)
‘A regra da indução válida não existe. É um mito.’ (83)
‘ ... na filosofia os métodos têm pouca importância: desde que produzam resultados suscetíveis de discussão racional.’ (144)
‘... a própria observação tende a ser orientada pela teoria.’ (145)
‘Comecem observar imediatamente, aqui mesmo, dando-me o resultado científico de suas observações. Isso poderá ser pouco justo, pois não há nada de notável para ser observado aqui e agora.’ (154)
‘ ... precisamos começar com alguma coisa: se não houver nada para transformar, não chegaremos a parte alguma.’ (155)
‘A ciência cresce por um processo que é mais revolucionário que cumulativo – um método que destrói, altera tudo.’ (155)
‘ ... não podemos começar da estaca zero. Precisamos utilizar o que nossos antecessores fizeram. Precisamos desenvolver uma certa tradição.’ (155)
‘Todo modelo teórico pressupõe a escolha da questão.’ (214)
‘É a possibilidade de refutação empírica que distingue as teorias científicas.’ (223)
Thomas Kuhn (1922-1996) em A função do dogma na investigação científica (1979):
‘A natureza é demasiado complexa para ser explorada ao acaso, mesmo de maneira aproximada. Tem de existir algo que diga ao cientista onde e por que procurar, e esse algo, que pode muito bem não durar mais que essa geração, é o paradigma que lhe foi fornecido com sua educação de cientista. Em virtude disto, o cientista em grande parte deixa de ser um explorador do desconhecido, e passa a lutar por articular e concretizar o conhecido.’ (72)
Paul Feyerabend (1924-1994) em Contra o método (1975):
‘São muitos os modos de abordar a natureza e a sociedade, e muitos os modos de julgar os resultados de uma abordagem; é preciso escolher, não há condições objetivas a nos guiar.’ (Contra o método, pág. 300)
‘Toda descrição da realidade é necessariamente inadequada.’ (entrevista a John Horgan em O Fim da Ciência. Companhia das Letras, São Paulo, 1998, p.75)
Ilya Prigogine (1917-2003) em A Nova Aliança - metamorfose na ciência (1979):
‘... a ciência racional deve sua existência ao seu sucesso: se o procedimento científico pode ser praticado, é porque ele descobre pontos de acordo notáveis entre nossas hipóteses teóricas e as respostas experimentais.’ (3)
‘Sem dúvidas a ciência é uma arte de manipular a natureza. Mas também um esforço para compreender, para responder algumas questões que, de geração em geração, alguns homens não cessaram de colocar a eles mesmos.’ (203)
‘Quer na relatividade, quer em mecânica quântica ou em dinâmica, as demonstrações de impossibilidades ensinaram-nos que não se podia descrever a natureza do exterior, como simples espectadores.’
Merleau Ponty havia já sublinhado essa urgência, a urgência de pensar aquilo a que chamava de verdade na situação: ‘enquanto guardo em minha posse o ideal de um espectador absoluto, de um conhecimento sem ponto de vista, não posso ver em minha situação senão um princípio de erro.’ (215)
‘Assim a ciência se afirma hoje como ciência humana, ciência feita por homens e para homens. No seio de uma população rica e diversa em práticas cognitivas, nossa ciência ocupa a posição singular de escuta poética da natureza - no sentido etimológico em que o poeta é um fabricante - exploração ativa, manipuladora...’. (215)
‘Deleuze vai ao ponto de falar, a propósito de uma tal ambição filosófica, de empirismo. ‘O empirismo não é de modo algum uma reação contra os conceitos, nem um simples apelo à experiência vivida. Ao contrário, empreende a mais louca criação de conceitos que jamais se viu ou ouviu.’ (223)
Michel Serres (1930) em Hermes, uma filosofia das ciências (1990):
Sobre a História das Ciências: “Assim, o percurso não só reconheceu lugares teóricos, mas também encontrou homens.’ (130)
‘O discurso segundo e crítico não é produzido por uma meta-ciência, por uma instância ou uma coletividade exterior à ciência, mas por uma parte dela própria, à qual costumamos chamar ciência humana.’ (130)
‘Nenhum método jamais conduziu à invenção. Ele as bloquearia, de preferência.’ (133)
‘Nesta matéria, como em outras, obtém-se respostas locais, diferenciais, limitadas; é não integrável. Não temos e talvez não tenhamos jamais resposta global. O lugar vazio é o do saber absoluto.’ (134)
‘A física me força a dizer que a existência em geral é metafísica.’ (162)
Alain Badiou (1937) em Para uma nova teoria do sujeito (1994):
‘Nada permite dizer: aqui começa uma verdade. Será preciso fazer uma aposta. É por isso que uma verdade começa por um axioma de verdade. Ela começa por uma decisão.’ (45)
‘A hipótese antecipante quanto ao ser genérico de uma verdade, eu a chamo de forçamento.’ (48)
‘A potência de uma verdade sustenta-se no forçamento hipotético.’ (49)
‘Essa dimensão de antecipação estabelece os julgamentos no futuro anterior.’ (68)
‘A potência de uma verdade, na dimensão do futuro anterior, é de legislar em antecipação de sua própria existência’. (69) (Auto-referência)
‘Existe sempre um ponto de tropeço absoluto. Um termo que, embora dado na situação, subtrai-se radicalmente ao domínio da avaliação. Um ponto de algum modo inforçável. Esse ponto, eu o chamo de inominável.’ (71)
Alan Sokal & Jean Bricmont em Imposturas Intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós modernos (1999):
‘... o mundo exterior corresponde, ao menos aproximadamente, à imagem dele fornecida pelos nossos sentidos.’ (64)
‘A razão para acreditarmos nas teorias científicas é que elas explicam a coerência das nossas experiências.’ (66)
‘As confirmações experimentais das teorias científicas testemunham o fato de que realmente adquirimos um conhecimento objetivo (mesmo que aproximado e incompleto) do mundo natural.’ (66)
‘...o futuro é por sua própria natureza, imprevisível... a racionalidade é sempre uma adaptação a situações novas.’ (67)
‘A indução é uma inferência do observado para o não observado, e nenhuma inferência deste tipo pode ser justificada usando-se somente a lógica dedutiva.’ (71)
‘... a totalidade das proposições teóricas está sujeita ao teste de falsificação, e também a totalidade das nossas observações empíricas, o que confronta nossas interpretações teóricas.’ (74)
Filósofos do Planalto Central - 2008


